Conduzir pela “Narco Road” em Ghost Recon: Wildlands

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O jogo original não era perfeito, mas este DLC parece pegar nos pontos menos positivos do jogo.

Ghost Recon: Wildlands é capaz de ser o jogo com maior sucesso nos lançamentos recentes da Ubisoft. E nada como uma expansão de conteúdo para manter o interesse bem vivo. “Narco Road” está aí para dar mais luta ao cartel de Santa Blanca, desta vez infiltrados ao volante.

Com a sua identidade bem firmada num mundo aberto à exploração, num enredo vago que serve apenas de pretexto para actividades violentas, Wildlands mantem-se nas preferências de muitos jogadores. Contudo, só agora chegou a primeira expansão inserida no passe de época. Até agora, a Ubisoft tentou corrigir erros e balancear o jogo. Vejamos o que adiciona num jogo que já havíamos analisado e concluído que, apesar de divertido, ainda precisava de muitos ajustes. Esta também é, já agora, uma oportunidade de o revisitar.

Ao fim deste tempo a jogar este título, confirma-se o que dissemos na análise: É realmente repetitivo e genérico. Mesmo assim, a sua acção é sempre interessante para quem gosta de shooters tácticos, ainda por cima com um robusto sistema de sessões cooperativas. Jogado com amigos ou com desconhecidos (via matchmaking) Wildlands é um jogo fantástico e divertido. A solo… depende do tempo que decidem dedicar. Se a abordagem for casual e esporádica, o jogo assume-se como um fardo com demasiadas tarefas para cumprir de modo a dara andamento à missão principal que é caçar El Sueño.

No entanto, se nos dedicarmos a conquistar cada região, ao ponto de olharmos para o jogo num plano estratégico, eventualmente, apesar da repetição ser uma realidade, concluímos que este é um jogo para “se ir jogando”. E isto retira-lhe bastante peso no que toca à dimensão exagerada. Ou seja, se querem jogar um título linear que vos leve numa narrativa cerrada de A para B, este não é o jogo que procuram. Se querem um shooter táctico que podem jogar com amigos e que vos dará imensas horas de exploração e de acção descontraída, fechando um pouco os olhos à repetição da fórmula, podem gritar “bingo”.

Mas, o que nos traz aqui hoje é “Narco Road”. Saibam que esta é uma verdadeira expansão que age de forma independente do jogo original. E se há dúvidas neste ponto, talvez a opção de menu separada logo no arranque esclareça esta realidade. Narco Road é uma missão à parte e que adiciona um novo enredo, ou seja, um novo alvo a abater, desta vez um tal de “El Invisible”. Este novo antagonista ergue-se praticamente da mesma maneira que “El Sueño”, com regiões controladas por sub-comandantes. A diferença principal é que o barão da droga e os seus tenentes formam um gangue de condutores e motoqueiros implacáveis e viciados em corridas.

Já estão a ver onde isto nos vai levar, certo? Entre outras actividades, os quatro operacionais ao serviço da lendária Ghost Recon ao serviço da CIA, atiradores e estrategas militares exímios… vão-se infiltrar no gangue como potenciais condutores. Isto significa, que há um claro desvio da acção militar original. O que, para todos os efeitos, era o verdadeiro ponto forte do jogo. O pior neste desvio é que as novas missões são tão diferentes, que algumas chegam a ser francamente más.

Para terem uma ideia de como esse desvio descaracteriza o jogo, uma boa parte das novas tarefas giram em torno de veículos, como ter um destino fixo para chegar a bordo de um automóvel específico, por exemplo. Outras missões visam proteger jaulas animais, procurar veículos raros, conduzir camiões de laboratórios de droga sem os danificar e há até missões em que subimos a um avião para uma missão de monda química. Sim, leram bem: vamos pulverizar campos de cultivo com aviões… num shooter táctico… de arma ao peito…

Esta dependência clara dos veículos do jogo, aliada à qualidade francamente discutível das missões, só é ainda mais prejudicada por uma realidade incontornável: o controlo dos veículos foi sempre (e ainda é) deplorável. Apesar dos melhores esforços da Ubisoft, conduzir ou pilotar neste jogo nunca foi uma boa experiência. Criar missões que dependem da nossa proficiência a controlar veículos foi, no mínimo, arriscado para a produção. Os veículos deveriam ser apenas meios de transporte neste jogo. Dar-lhes tanto destaque só realça a sua fraca qualidade ao nível de controlo.

Todas as missões principais ou secundárias, já agora, ficam imediatamente disponíveis, ao contrário do jogo original em que tínhamos de as encontrar via exploração ou desbloqueando-as com alguns coleccionáveis. Ou seja, não há particular interesse em explorar o mapa de Narco Road, eventualmente tudo estará revelado sem grande esforço. Apesar de haver novas armas, não as terão de procurar pelo mapa como no jogo original. Elas são entregues no decorrer do enredo. Também não terão de progredir as habilidades do soldado, uma vez que começam logo com uma personagem de nível 20, com armamento próprio. Notem que nada transita do jogo original, tenham ou não terminado a carreira a solo.

Narco Road, portanto, é uma história paralela e independente do jogo original. Para combater os tais bosses, terão de passar por missões de corridas, de perícia ao volante, assassinar membros do gangue e… angariar seguidores no Twitter… A ideia é que nos tornemos populares de modo a chegar perto dos líderes do dito gangue. A dada altura, essa proximidade fará com o que um líder seja afastado e cheguemos próximo do alvo principal “El Invisible”. Se nada disto fizer sentido, para nós também não faz. Se o enredo do jogo original era fraco, este é, à falta de melhor expressão, caricato.

E não se deixem enganar pelo “novo” mapa. Apesar dos territórios possuírem formatos diferentes dos originais, as províncias são exactamente as mesmas. A produção realinhou o território, reduziu-o e alterou algumas posições. O que é um truque barato para iludir o jogador. É óbvio que a área de jogo tinha de ser menor, uma vez que só temos agora três líderes de gangues para combater. Reorganizar um território já feito, reduzindo-o para uma dimensão ajustada é um passo lógico, mas soa sempre a busca pela facilidade.

Quem jogou o jogo original recordar-se-á de regiões sem quaisquer bosses para combater. Porque não usá-las nesta e nas próximas expansões? Até nem seria mal pensado criar uma nova região, considerando que o mapa original nem estava à escala total do mapa real da Bolívia. Outros jogos já o fizeram e evitaram esta sensação de dejá vu. Se calhar o governo da Bolívia até agradecia que fosse noutro país, por exemplo. Não! Toca a reciclar o mesmo mapa. Enfim…

Para um jogo com deficiências claras na condução irregular e num enredo “esquecível”, ter um DLC que reforça exactamente essas fraquezas, é algo incompreensível. Por cerca de 15€, “Narco Road” parece ignorar o ADN original de jogo de acção táctica. Dá-nos umas quantas missões francamente dispensáveis, apoiadas em mecânicas falíveis, quando o jogo original estava tão bem firmado, mesmo sendo algo repetitivo. Podia ser um novo jogo ou spin-off que usava vagamente o mapa do jogo original e não ficávamos desapontados. Nestes moldes, porém, este não era o DLC que queríamos para Ghost Recon: Wildlands.