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Cogito Ergo Gamer: Violência e Videojogos


13/09/2013

Recupero aqui um tema que falámos há uns tempos aqui no WASD num dos nossos artigos de opinião. Considerando que escrevo isto no rescaldo de mais uma história em que um adolescente matou os pais, supostamente por causa de um videojogo, desta vez no Brasil, o tema nunca mais terá descanso e jamais se chegará a um consenso: São, de facto, os videojogos os causadores de actos violentos entre crianças e adolescentes? Acompanhem-me nesta viagem polémica em que tento desmistificar esta questão.

A cena é igual a muitos outros lares. Estou em casa de amigos e o filho mais novo destes, sabendo que sou gamer, pergunta-me se quero jogar com ele. Sento-me no sofá, pego no comando da Playstation 3 e espero um FIFA (PEGI 3) ou um Little Big Planet (PEGI 7). Mas quando olho para o ecrã, vejo nada mais, nada menos que o violento Borderlands 2 (PEGI 18). Apenas uns minutos a jogar em splitscreen, observei uma metamorfose com o pirralho a vibrar com cada desmembramento e a lançar uma artilharia de impropérios cada vez que morria. Notando que o filho estava a ultrapassar os limites, o pai surgiu na sala, tirou-lhe o comando e mandou-o para o quarto. O miúdo, normalmente calmo e passivo, lançou-se a chorar contra o pai numa daquelas fitas que nem no cinema se consegue equiparar.

A pergunta que naturalmente tive de fazer foi: “Ele passa muitas horas a jogar?” A resposta já eu a sabia. Os pais, naturalmente culparam o jogo que o rapaz estava a jogar pelos actos impróprios contra o pai, ainda por cima com visitas. Mas as duas outras perguntas foram muito mais constrangedoras para o pai: “Que idade tem ele?” e “Quem lhe comprou o jogo?”

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A resposta era óbvia. O pai tinha comprado o jogo, mesmo vendo a classificação PEGI 18 na capa para uma criança de 8 anos. Pior que isso, permitia que o rapaz o jogasse sem a sua supervisão e ainda por cima, nem sabia bem o que era o jogo antes de o comprar. Comprou porque o filho pediu. Deixou-o horas agarrado a uma consola, no quarto dele (onde tem outra consola!), sem supervisão, sem alternativas, enquanto se dedicava a ser marido, porque pai era pouco. Soa familiar?

Não é um caso único, nem sequer uma pequena percentagem. E nem sequer se passa só em casa. Nas escolas, há muitos miúdos com smartphones e consolas portáteis com jogos sem supervisão dos pais. Há dias o meu amigo Miguel Nogueira (Rubber Chicken Games) colocou no seu facebook uma imagem (ao lado) numa das FNAC em que colocam jogos em demonstração. Tratava-se de Saints Row IV (PEGI 18), o tal com insinuações sexuais, violência e impropérios avulsos. Mas a pegar no comando estavam… crianças… e nem um adulto à vista.

E isto pode levar a crimes hediondos como o assassinato dos próprios pais? Segundo os média Brasileiros (e não só), a descoberta do jogo Assassin’s Creed na posse do jovem Marcelo Pesseghini de 13 anos é a resposta para ter assassinado os pais e avó, a 5 de Agosto deste ano. Vejam o vídeo em baixo a partir do minuto 9:20.

Mas há mais casos. Muitos mesmo. Em 2012 no Connecticut, EUA, Adam Lanza de 20 anos abriu fogo no liceu Sandy Hook matando 26 pessoas, sendo 20 crianças do ensino primário, depois de matar a mãe em casa. A 22 de Julho de 2011, Anders Breivik ceifou 22 vidas na Noruega com um ataque coordenado de atentado bombista e disparo de armas automáticas. Mas o caso mais mediático e chocante de sempre aconteceu no Columbine, EUA, em 1999 com o massacre de 12 estudantes e uma professora e o ferimento de 24 outras pessoas com armas automáticas por parte de dois adolescentes. Foi talvez o grande caso mediático, um dos primeiros.

Em todos os casos acima, mais cedo ou mais tarde, numa tentativa de encontrar uma explicação para a demência, surgiu um videojogo algures como uma explicação “óbvia” pelo comportamento desviante. Já nem eram filmes (o caso Columbine chegou a ser associado aos filmes The Matrix, mas rapidamente descobriram na casa dos adolescentes o jogo Doom) . A revista Variety chegou a falar dos videojogos nestes casos como sendo “simuladores de assassinatos”.

Não é preciso ser um investigador especializado para aperceber-me que alguns temas relatados em videojogos são impróprios para menores. Uma das nossas últimas análises, o jogo Payday 2 promove uma carreira de crime em que assaltar bancos e matar polícias é normal. O colosso Grand Theft Auto ensina a roubar carros, consumir drogas, gerir gangs, contratar prostitutas, entre muitas outras coisas que todos nós, racionais adultos, consideraríamos prejudiciais para uma criança que está a crescer. Ainda por cima, se tivermos em conta que estão numa fase em que absorvem tudo e estão a formar opinião. É bastante possível que se gerem noções de moral distorcidas. É muito possível que ao tomarem contacto com tantos temas sensíveis, se tornem impermeáveis à sua correcta abordagem e lhes sejam distorcidos os valores.

Mas isto seria uma grande verdade se as crianças nascessem e crescessem sozinhas. Onde estão os pais e tutores nesta equação? Quem é que deve realmente educar as crianças que não os encarregados da sua educação?

Newspaper in the UK

Quando cresci, não tinha consolas nem smartphones. Quanto muito tive uma Atari, um ZX Spectrum, um Commodore 64… Já haviam jogos de acção, alguns até com conteúdos explícitos de sexo, com gráficos mais ou menos perceptíveis. Mas haviam já filmes violentos e até mesmo a televisão vibrava com as notícias de mortes e sangue em guerras e conflitos. Mas neste tempo todo tive pais presentes. Pais que me ensinaram valores. Que me limitavam a exposição a tudo isto. Ensinaram-me que a realidade que me davam era mais importante que a ficção e que os valores a reter eram os deles e não os de John Rambo. Quando passava os limites, levava uma chapada. Não me fez nenhum mal. Não morri. Estou cá! Não deixei de amar os meus pais. Podia-me revoltar, sim, como todos os jovens perante uma figura de autoridade, mas construí uma moral que me orgulho.

Quando hoje pego num comando para jogar, não me imagino a pegar numa M4 e a desatar ao tiro a pessoas aleatórias. Faço-o no jogo. É um ambiente sintético, não me perturba emocionalmente. A única coisa que me influencia (de forma positiva) é na capacidade de raciocínio e resolução de problemas, no melhoramento de reflexos e reacções. Sim, é possível que quando perca me sinta frustrado e sem grande humor. Sim, é possível que me irrite com problemas técnicos. Até é bem possível que parta um ou dois comandos… Mas daí a sair de casa numa espiral de loucura e demência assassina… enfim…

Mas será mesmo possível que isso aconteça numa criança ou adolescente? Penso que sem qualquer outro estímulo, não. O problema real é que as crianças não vivem numa realidade perfeita. Estão expostos a pressões extremas de crescer à imagem que os pais inventam, são testados por outras crianças, são ameaçados, são perseguidos pela diferença, são humilhados pela fraqueza… Naturalmente, em vez do videojogo ser uma escapatória, é uma incubadora de emoções. Ali são reis e imortais… e que tal transportar para a realidade? Caberia, nesse momento, aos pais intervir ajudando a criança a lidar com os problemas de forma pacífica e com a sua experiência pessoal.

Mas mais uma vez sou obrigado a perguntar: E onde raio estão os pais e tutores?

Os educadores, os responsáveis das crianças não são os jogos. Nem sequer deviam ter em casa jogos violentos. Regra geral o sistema PEGI protege as crianças deste tipo de jogos. Ninguém no seu bom senso pegaria numa faca afiada e daria a uma criança de 8 anos, mas um jogo para maiores de 18 anos já o faz. Pior que isso, empurra-o para uma sala fechada, encerra-o lá com a consola e espera que aquele miúdo um dia se torne um Doutor amável. Pura ignorância. Para que serve a norma PEGI se os pais escolhem ignorá-la? Ela existe para prevenir que jovens e adolescentes tenham acesso a conteúdo impróprio, pais!

PEGI

Ser pai ou mãe não é uma ciência. Mas é uma responsabilidade que nem todos deviam ter. Não se pode culpar os efeitos de um videojogo resultantes da incompetência dos pais. Cabe aos tutores das crianças impor regras e limites para que possam crescer sem deturpações de valores. É que nem é só o videojogo que pode causar esse tipo de desvios. Filmes, os média, até mesmo a Internet sem regras pode ser uma terrível ferramenta, mais até que o videojogo.

Em conclusão, digo-vos que a ideia que o videojogo sozinho está a criar crianças violentas é errada. Pode ser um veículo para tal. Mas para isso, contribuem os pais e tutores pela sua indiferença e incapacidade de educar. É muito mais fácil fechar a criança no quarto com a consola, onde não chateia, onde não interrompe outras actividades do pais. É muito mais rápido parar uma birra por lhe colocar o jogo “hype” nas mãos. Jogos tipo Call of Duty, muito populares nas mãos de crianças de 10 anos que inundam o online do jogo com insultos às mães dos outros.

Mas tal como uma pistola em cima de uma mesa que não mata ninguém, o videojogo por si só não vai influenciar a criança se os pais estiverem presentes e a gerir o seu crescimento. A ausência dos pais e tutores na sua educação, porém, é que irá premir o gatilho. A criança só segura na arma…

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