Não, o DCS: Hawk T.1A não é um novo módulo. Na verdade, está em Acesso Antecipado desde 2015. A promessa de trazer o avião de treino por excelência da Royal Air Force, ainda hoje está por cumprir no DCS World. Mas, a sua aterragem está mais perto.

Neste momento em que escrevemos, o DCS 2.5 oferece três tipos de aviação: A de combate puro e duro, como o DCS: F/A-18C Hornet que já visitámos, aviação acrobática na qual se insere o recente DCS: Yak-52 e a categoria onde este Hawk se encaixa, a aviação de treino. O Hawk é um aparelho desenvolvido pela British Aerospace (anteriormente pela Hawker-Siddeley) com esse mesmo objectivo: treinar pilotos em teoria avançada de voo e introdução a combate aéreo. Não só a RAF usa este avião, mas também voa na Commonwealth e em diversas forças aéreas por todo o mundo como a Finlândia, Índia, Indonésia, Arábia Saudita, Malásia, entre outras. A Força Aérea Americana (USAF), por seu lado, opera uma versão “americanizada” com o T-45 Goshawk com capacidade de operação em porta-aviões.

A história deste módulo não se prende somente com o seu desenvolvimento técnico. Infelizmente, a fama do DCS: Hawk T.1A não é propriamente consistente. Uma breve visita aos fóruns e áreas sociais do DCS World revela uma determinada antipatia, ora pelo módulo em si, ora pela VEAO Simulations. A produtora britânica começou da melhor forma possível, apresentado ideias e projectos de aviões interessantes, como o Hawk que hoje iremos prever, assim como o Eurofighter Typhoon e outros projectos de aviões modernos e da Segunda Guerra Mundial. O Hawk parecia o início de uma excelente campanha de módulos para o DCS World.

Contudo, os processos de concepção e de testes do aparelho ficaram desde logo comprometidos. Não há um prazo específico para um módulo ser produzido no DCS World. Dada a complexidade de sistemas e dos modelos de voo, há módulos que precisam de largos meses, anos mesmo, para chegar à fidelidade exigida pela Eagle Dynamics e, mais importante, exigida pelos utilizadores. Bom, o DCS: Hawk não atingiu esse patamar de fidelidade esperada, pelo menos não no tempo que os utilizadores imaginaram. Esta situação resultou em insatisfação um pouco por todo o lado. O módulo recebeu inúmeras avaliações negativas, mergulhando num abismo de onde parecia jamais poder em sair.

Exactamente há um ano, em Agosto do ano passado, a VEAO finalmente mostrou para onde queria rumar. Não só a produção do Hawk iria continuar, como os seus principais problemas iriam ser resolvidos atempadamente, fazendo com que saísse do Acesso Antecipado algures nos meses seguintes. Pelo menos, essa foi a promessa. A empresa mostrou que estava agora empenhada noutros simuladores, mas que não iria deixar o seu projecto no DCS incompleto. Mas, esta tarefa não era nada simples. O Hawk estava virtualmente estagnado no tempo. Por outro lado, uma parte da equipa original tinha alegadamente saído da VEAO para outros horizontes.

Afinal, que problemas tinha o Hawk ao ponto de ser considerado “um dos piores módulos” do DCS World? Para começar, o modelo de voo estava completamente desajustado a uma simulação realista que todos queriam. As velocidades e físicas estavam algo incertas, assim com as inércias e respostas do aparelho. Depois o cockpit do avião, apesar de interactivo, parecia estar anos atrás dos demais módulos. Também a estabilidade era um problema com muitas falhas de performance e “peso” adicional na renderização. Finalmente, o modelo visual exterior e os danos necessitavam de urgente revisão. Ou seja, o Hawk precisava de imenso cuidado adicional. Restava saber se a VEAO estava à altura.

Um ano depois, aqui estamos com o DCS: Hawk T.1A na sua versão 2.5.2 Early Access. Não podemos dizer que este é o avião prometido pela VEAO em 2015, mas podemos dizer que está bem mais próximo disso, se avaliarmos como estava há um ano. Muito do código do produto foi refeito quase de raiz e isto inclui o modelo visual e a performance do avião. Há muita coisa ainda por fazer, mas não nos podemos focar só no que está em falta, mas também no que foi “mexido” para nos trazer o que temos hoje em dia. Isto é o que todos querem de qualquer investimento: que, por mais que demore, a produção não baixe os braços. Mesmo em falta há tanto tempo, a VEAO não desistiu.

Para começar, o cockpit foi inteiramente “retexturado”, oferecendo um aspecto muito mais polido graças às texturas PBR (Physically Based Rendering). Ainda há algumas texturas que precisam de um pouco de trabalho e optimização mas, de um modo geral, tem tudo óptimo aspecto, com algumas texturas a simular materiais diferentes. O que saltará mais à vista é a nova iluminação nocturna que permite retro-iluminar o painel por completo, com auxílio de dois focos adicionais laterais. Além de ter melhor aspecto, estas texturas oferecem melhor leitura do painel e dos instrumentos em si. Menos positivo, é que as luzes de strobe estão a ofuscar quase tudo por iluminar todo o cockpit. É um problema conhecido no DCS, corrigido em alguns módulos, noutros nem por isso. Desliguem essas luzes por agora.

O modelo de voo também foi amplamente revisto. Não mais podemos “esticar a corda” para ângulos de ataque exagerados e não mais pudemos puxar mais Gs que o Space Shuttle na reentrada. Mesmo assim, ainda senti algumas inconsistências em voltas apertadas, com oscilações verticais ou com comportamentos estranhos em velocidade, por exemplo. Observando as tabelas de performance do avião real, parece-me que o modelo de voo precisa de mais alguns ajustes, sobretudo em termos de limitações. Notem que este aparelho não tem um PFM (Professional Flight Model) pelo que a fidelidade não pode ser assegurada por inteiro. Mesmo assim, nota-se que há um salto qualitativo no modelo de voo.

Quem sabe a correcção que todos gostariam de ver, seria na lógica de danos. Inúmeras vezes o Hawk demonstrou ser uma autêntica fortaleza voadora, simplesmente porque nenhum arma, por mais mortífera que fosse, parecia afectar o aparelho. Mísseis, balas e até impactos contra objectos, nada parecia demover o pequeno avião. Infelizmente, a VEAO ainda não conseguiu implementar um modelo de danos completo no Hawk. Segundo a produção, um novo modelo de danos está a ser concebido pela própria Eagle Dynamics, o que não permitiu ainda implementar algo mais credível no aparelho. Por agora, não são unidades aconselhadas para combates aéreos.

Nesta onda de correcções e melhorias, há algumas baixas a assinalar. O trem de aterragem no nariz do avião real não possui controlo direccional, virar o aparelho é feito com travões diferenciais. Mesmo assim, o trem frontal roda livremente na direcção do nariz. O DCS: Hawk, por vezes, parece ignorar esta mecânica e o trem não se move para nenhum lado. Outra perda de assinalar é que, por agora, não podemos entrar no banco de trás do Hawk. O que significa que o lugar de instrutor está desabilitado. Segundo a VEAO, esta era uma das causas de crashes e outros problemas graves, pelo que terá desabilitado esta funcionalidade até descobrir como a resolver.

Também o armamento do Hawk ainda não está totalmente revisto. Já só é possível levar mísseis AIM-9L Sidewinder nos pylons exteriores e as bombas e rockets só podem ser levadas nos pylons interiores. Contudo, o canhão desmontável ainda não está modelado e também ainda não podendo ajustar as miras fixas do HUD. Também a distância de “lock” do Sidewinder parece demasiado próxima. Não é que queira mesmo usar este aparelho para combate numa próxima missão, no entanto, um dos seus atributos possíveis é servir de plataforma de adaptação para combate básico Ar-Ar e Ar-Solo. Exactamente como o L-39 Albatros já presente no DCS World.

Passando todas estas observações em revista, parece que o DCS: Hawk T.1A não é uma boa adição ao vosso hangar do DCS World. Contudo, comparando com o que oferecia há pouco mais de um ano, devo dizer que este módulo deu importantes passos na direcção certa. O novo aspecto do cockpit está francamente melhor, o modelo de voo sofreu importantes melhorias e há mais novidades a caminho deste módulo. Espera-se a inclusão de mais funcionalidades nas próximas semanas, talvez apontando para uma saída próxima do Acesso Antecipado, chegando à versão final a passos largos. A produção não nos deu nenhum prazo, mas arriscaria dizer que até ao final do ano é muito possível.

Penso que o maior dos desafios da VEAO Simulations, porém, nem é mostrar que é capaz de recuperar este seu módulo. A principal e mais complexa tarefa será mostrar à comunidade de DCS World que é capaz de se reinventar a si própria no processo. Não é tarefa fácil, mas o teste feito aqui, digo-vos, foi muito positivo. Mesmo que tenha demorado tanto tempo, desde o ano passado temos um avião muito mais próximo do realismo pretendido. Por tudo o que a VEAO passou, por tanta publicidade negativa, há que dar uma nova oportunidade. O Hawk T.1A ainda não está no seu pleno, mas acredito que chegará onde quer. A questão é se estão dispostos a pegar no manche outra vez.

Este software foi testado através de uma versão experimental em acesso antecipado, e foi gentilmente cedido pela VEAO Simulations. Sendo uma versão experimental, muitas das características, bugs, erros ou faltas assinalados poderão sofrer alterações até ao lançamento. 

Se desejarem conhecer a pequena comunidade Portuguesa que treina e voa regularmente no DCS World, visitem a pagina DCS World – Portugal no Facebook e o canal de Discord deste grupo. Uma boa parte das imagens que usamos neste artigo foram criadas em sessões criadas neste grupo.