Até há muito pouco tempo, este módulo passou despercebido a muitos dos utilizadores do DCS World. A utilização de um avião de treino num simulador de combate foi sempre algo discutível. O C-101 Aviojet da Espanhola Aviodev vem adicionar bastante à discussão.

Não era possível uma melhor conjectura como a actual para o pequeno C-101. A popularidade dos aviões mais virados para o treino é maior que nunca, com o Yak-52 a surgir recentemente e outros a caminho. Infelizmente, a nível de jet trainers, o DCS conta agora apenas com dois aparelhos, o DCS: L-39 Albatros no lado Russo e este DCS: C-101. Isto porque o DCS: Hawk T.1A que revimos há pouco tempo foi abandonado, com a produção a desaparecer do panorama. Mais simplificados, mais lentos, mais tolerantes, os aviões de treino são óptimas plataformas de aprendizagem das regras básicas do voo. Só que a Aviodev deu um passo importantíssimo nestes dias, aproveitando muito bem o momento. Armou o Aviojet e ainda lhe deu uma revisão geral neste seu acesso antecipado.

O Aviojet é um avião bi-lugar de cabine pressurizada, originalmente desenhado pela CASA (Construcciones Aeronáuticas SA, actualmente parte da gigante EADS) para substituir em 1975 os datados aviões de treino da Força Aérea Espanhola. Conta com um design bastante familiar, inspirado em aviões do mesmo género como o Alphajet ou o Hawk, mas com diferenças na aerodinâmica, sobretudo no desenho das asas em formato trapezoidal e um leme de profundidade elevado. Aliado a um limitado motor turbofan (o lendário Garret TFE731, o mesmo encontrado em jactos privados), faz com que o C-101 não seja o aparelho mais rápido nos céus, nem de longe.

Comparando-o com a concorrência, o Hawk seria mais rápido, mais manobrável e até mais avançado tecnologicamente. Mas, este aparelho já não está nos nossos céus virtuais. O Albatros, por seu lado, é igualmente mais rápido (marginalmente), tem maior capacidade de ataque (na versão ZA) e até tem maior alcance que o Aviojet. Contudo, o C-101 tem um cockpit bem mais acessível, com disposição e configuração mais convencionais, ao estilo NATO, além de ter uma simplificação muito maior de sistemas complexos, resultando numa simplificação aparente. Neste momento, é o único jet trainer do lado “azul” disponível no DCS World, ideal para iniciar-se no voo a jacto… e não só, como irão ver.

Até agora, o C-101 apenas podia ser voado no DCS na sua versão mais básica, o C-101EB. Esta é a versão desarmada bi-lugar, usada para instrução de voo e procedimentos pela Força Aérea Espanhola, sendo mais conhecido pela sua prestação na famosa equipa acrobática Patrulla Aguila. Contudo, por mais simpático que este aparelho fosse, a ausência de sistemas de armamento num simulador de combate, tornava-o menos apetecível. A Aviodev há muito que publicitava que este projecto haveria de incluir também o C-101CC, a versão armada deste aparelho, inicialmente desenvolvida pela CASA para as Forças Aéreas do Chile e da Jordânia. Finalmente, Dezembro foi a altura da sua muito esperada aterragem.

O C-101CC inclui as mesmas capacidades de voo e operação da versão EB, sendo igualmente bi-lugar e adiciona sistemas de armamento, um Heads Up Display (HUD) básico e outras pequenas alterações nos dois cockpits. Dadas as limitações aerodinâmicas que já mencionei, nunca será um “caça” ou um “bombardeiro” puro. Será sempre um avião de treino, em que os pilotos poderão ganhar proficiência, primeiro no voo, depois nos procedimentos de armas. O que mais surpreende à partida, mesmo sem entrar no avião, é rever a incrível lista de armamento que este avião tem. Para um pequeno jacto de treino, está armado até aos dentes. Mas, antes de disparar seja o que for, convém sair do chão…

Uma leitura breve do manual do avião, é o mínimo que se pede num módulo novo no DCS. Contudo, decidi de imediato entrar no cockpit e visitar os sistemas sem qualquer preparação. O meu intuito era fazer o que chamo de “exploração de contacto”. O que pretendo com isto é verificar se existe alguma “ponte” de lógica intuitiva com os demais aparelhos que simulo regularmente. Fiquei verdadeiramente surpreendido com a facilidade com que encontrei os sistemas na sua posição “natural” e me pareceu que podia ligar o avião sem grandes problemas. Os jet trainers são desenhados também para criar o que se chama de “memória mecânica” nos pilotos. Se soubermos onde estão as coisas nesta plataforma inicial, regra geral, vamos encontrá-las, mais ou menos, na mesma posição nos aviões de linha.

Painel de bateria e inversor no lado da mão direita, rádios abaixo do braço direito, arranque de motores na mão esquerda, armamento no quadrante inferior esquerdo, etc. Mesmo sem consultar o manual, segui as checklists de forma natural e arranquei o avião à primeira tentativa no meu primeiro voo. Uma ou outra linha foi mais complicada de seguir, encontrei também passos únicos que tive de rever, especialmente nos procedimentos próprios que não estou familiarizado. Contudo, se estão habituados aos aviões NATO no DCS (como o Hornet, por exemplo), embora este avião seja francamente mais limitado e muito mais analógico, conseguirão fazer a tal “ponte” de lógica de operação que menciono acima.

Num primeiro impacto, há algumas coisas que saltam à vista. O GPU animado, que até ouvimos arrancar e mudar de RPM quando está em uso ou o capacete e escada na lateral quando o avião está imobilizado na placa, são os mais visíveis. Mas, há imensos outros pormenores curiosos para descobrir. Perdemos informação de velocidade se o aquecimento no tubo de pitot não estiver ligado. O giroscópio interno sofre precessos com mudanças de  velocidade, sendo preciso realinhar num dos modos do TARSYN. Até mesmo os faróis de aterragem queimam se os mantivermos ligados demasiado tempo no chão. Tudo isto demonstra o nível de simulação deste módulo, ainda em acesso antecipado.

Este também é um elogio à produtora Aviodev, obviamente. Embora não tivesse acesso ao manual de voo original do C-101, acredito que os procedimentos e reacções sejam muito próximos da realidade. O cockpit interactivo, pelo menos, é verdadeiramente complexo, cheio de partes móveis e imensos pontos de interacção, onde nem falta sequer o pequeno painel de circuit breakers ou a caixa do mapa. De facto, o cockpit do Aviojet é capaz de ser dos mais bonitos que temos agora no DCS World. Sobretudo à noite, a retro-iluminação é fantástica, bem legível e onde nem faltam os pequenos holofotes ajustáveis na posição. Voar à noite no C-101 é um prazer. E não se preocupem se não houver visibilidade.

É que a navegação neste módulo é qualquer coisa de genial. O sistema de inércias (o tal TARSYN) neste aparelho é simples e automático, necessitando apenas de uns meros minutos para alinhar tudo. Contudo, tem um sistema robusto de navegação VOR/DME, usando um completo sistema HSI com integração de Flight Director no horizonte artificial. O C-101 é um dos poucos aviões no DCS capaz de fazer uma completa aproximação ILS, com direito a indicação de marcadores de pista (markers) e tudo. Estou tão habituado a navegação por TACAN sem grandes procedimentos IFR no DCS, que este nível de precisão me impressionou e me levou aos tempos da aviação civil.

Avião no ar, sistemas de voo e navegação devidamente estudados, fazer circuitos é uma experiência interessante. Saibam que o C-101 foi dos últimos aviões a receber uma completa remodelação do seu modelo de voo. Embora este AFM (Advanced Flight Model) implementado ainda precise de um refinamento, o aparelho é suficientemente reactivo quando precisa mas bastante tolerante a erros, como seria de esperar num trainer. Gosto particularmente do sistema de alerta de perda (stall) que consiste numa vibração nos pedais. Não a sentimos (obviamente), mas ouvimos. Entrar em perda neste avião, porém, não é uma complicação, safando-se muito bem em manobras de recuperação.

Talvez tenha uns reparos a fazer no que toca a “trimar” o avião. O trim da elevação parece algo lento a reagir. Dado que o avião é algo “nervoso” no eixo da profundidade, acabamos muitas vezes a oscilar para corrigir ângulos de ataque. Curiosamente, isto é menos evidente em velocidades mais altas. Vou assumir que é uma característica realista deste avião. Aliás, há muitas características únicas neste avião. Voar invertido, por exemplo, faz com que o motor “apague”, uma vez que a injecção de combustível se perde. Podemos depois reacender o motor em voo novamente, caso isto aconteça. Este e outros pormenores vão surgindo com as horas de voo. Inicialmente achamos que é um bug, mas depois lemos o manual e descobrimos que é uma característica. Genial.

Já deu para perceber que, apesar do nível de detalhe, este é um aparelho muito divertido de manobrar e de “exceder” limites. Não é por mero acaso que a Patrulla Aguila usa este avião para as suas manobras acrobáticas. No DCS World, é capaz de ser dos melhores aviões de treino para alguém se iniciar em manobras complexas e, mesmo assim, não se comprometer com algum erro de operação mais forçado. Algumas horas de experimentação e estamos rendidos ao que, inicialmente, parecia um aparelho limitado e sem grande utilidade. O seu visual interno e externo é bastante cuidado, a sua operação é simples mas, ao mesmo tempo, complexa, dependendo daquilo que procuram num avião simulado.

Agora… tiros!

Como já mencionei, a versão C-101CC, a de combate, tem imenso armamento para levar aos céus. Obviamente, dada a dimensão, não pode carregar demasiadas munições. Temos quatro pilares para armamento Ar-Chão (rockets, bombas e misseis anti-navio… sim, leram bem!), dois pilares para mísseis Ar-Ar (Sidewinders e os franceses Magic) e um suporte central para canhões. O que é surpreendente é que este pequenote consegue carregar uns impressionantes 2,200 kg de armamento, mesmo que tenha de “comer” mais pista para isso. Levar duas Mk-84 em cada asa (cerca de 900kg cada uma) e largá-las no alvo é um feito que só nos recordamos de fazer em aparelhos bem maiores e mais avançados.

O sistema de armamento até é bastante intuitivo, recorrendo a um painel simples de selecção no quadrante inferior esquerdo do painel, tendo um outro no quadrante superior direito mais dedicado ao armamento ar-ar. A operação é fácil de seguir, seleccionando a estação e depois o modo de emprego (Bomb, Ripple, Rocket, etc). Infelizmente, o HUD é mesmo muito básico, sendo usado manualmente para largada de bombas, ou automático para projécteis (mísseis, rockets, canhões). Contudo, esta simplicidade é fruto da era em que foi desenvolvido, no início dos anos 80, com um papel muito simples de ataque ao solo para a Força Aérea Chilena (e depois da Jordânia).

Largar munição é um processo linear, na onda de outros aparelhos de tecnologia analógica que já terão no Hangar. Colocamos a retícula em modo manual, escolhemos a depressão em graus que queremos (há tabelas para consultar) e “lá vai bomba”. Quanto aos rockets e canhões, a retícula em modo automático oferece uma previsão de trajectória simples de seguir, com alguma precisão. Já os mísseis Ar-Ar são algo limitados, infelizmente. Neste tipo de aviões, são basicamente munição de defesa ou para atacar alvos lentos de oportunidade. O lock acontece apenas por tom (sensor de infravermelhos) e já muito perto do alvo. É interessante para curtos dogfights ou para alvos mais acessíveis, como helicópteros. Mas… não levem o C-101CC para combates aéreos.

Tive oportunidade de voar o Aviojet em diversos servidores online. A minha experiência foi sempre positiva. Tive até oportunidade de voar no assento traseiro do avião (sim, suporta multi-crew), com direito a passagem de controlos e tudo. Gostei que seja um avião leve e sem grande impacto em termos de performance do simulador, mesmo com outros aviões mais complexos pelo ar. Dado que as modas são outras, não pude replicar a Patrulla Aguila com outros elementos a voar no mesmo avião em servidor. Contudo, ainda mantenho a esperança que consigamos reunir um grupo de aviadores virtuais para umas manobras acrobáticas mais arrojadas.

O C-101 da Aviodev é uma das mais agradáveis surpresas dos últimos tempos para o DCS World. Pelo preço de um avião, recebemos dois, um para treino de voo puro, outro para combate básico. Enquanto avião acrobático, é uma plataforma muito interessante, nervosa mas tolerante e cheia de detalhes geniais. Mas, não se enganem pela sua aparência dócil. A versão de combate é bastante feroz, com muitas munições a bordo para trazer “democracia” aos incautos. Arrisco mesmo a dizer que é o melhor jet trainer que experimentei no DCS World até agora. E é uma óptima plataforma para se iniciarem neste simulador de combate.

E o que é curioso é que ainda falta muita coisa neste acesso antecipado do módulo. Como acontece com outros módulos actualmente no DCS, o modelo de danos ainda não está a 100%. Também o modelo de voo precisa de afinamentos e é óbvio que há pequenos bugs a corrigir, como o constante oscilar do indicador do ângulo de ataque no chão e outros problemas menores. Nada disto condiciona a excelente experiência que foi voar este pequeno/grande avião. Este DCS: C-101 Aviojet está já disponível na versão Beta de Acesso Antecipado. O lançamento do módulo finalizado, ainda deverá demorar alguns meses, contando com o apoio da comunidade.

Este software foi testado através de uma versão experimental em acesso antecipado, e foi gentilmente cedido pela Aviodev e Eagle Dynamics. Sendo uma versão experimental, muitas das características, bugs, erros ou faltas assinalados poderão sofrer alterações até ao lançamento. As datas fornecidas, assim como previsões de produtos, foram dadas pelos produtores.

Se desejarem conhecer a pequena comunidade Portuguesa que treina e voa regularmente no DCS World, visitem a pagina DCS World – Portugal no Facebook e o canal de Discord da Esquadra 701. Uma boa parte das imagens que usamos neste artigo foram criadas neste grupo.