Os leitores que nos visitam há alguns anos sabem que somos fãs da série Battlefield. Ao longo dos tempos, no entanto, temos assinalado também os seus muitos altos e baixos. Por isso, é com muita expectativa que aguardamos por Battlefield V. Entretanto, estivemos na fase de testes Beta e comentamos o que experimentámos.

Sempre que enveredei por uma campanha online de Battlefield, levei-a até ao limite do que podia fazer. Gastei milhares de horas em Battlefield 3 e muitas outras em Battlefield 4. Contudo, ao fim de uma série de alterações profundas da DICE, Battlefield 1 não teve o mesmo “carinho”. Não é que se tornasse um mau jogo mas algumas opções da produção, muitas em busca do equilíbrio perfeito, criaram uma experiência algo insípida para mim. Não quero dizer com isto que BF1 foi um mau jogo, só que essa busca persistente da DICE em agradar toda a gente, criou outros problemas. Se a série nunca foi perfeita, foi nos seus desequilíbrios que desnivelam a corrente da batalha que sempre brilhou. Se esses desequilíbrios deixam de ser tão relevantes, não há muito para o destacar. E é essa a noção que a produção tem de ter quando lançar Battlefield V.

Não vou abordar nenhuma das polémicas opções criativas ou de design da produção. Esse tema já foi amplamente debatido por toda a Internet, não é propriamente um tópico para discussão fácil de abordar. Assim sendo, vou guardar a minha opinião para o seu lançamento, altura em que faremos a devida análise a tudo o que o jogo oferece. Estou aqui para vos falar da Beta Aberta que arrancou no dia 6 de Setembro (dia 4 para quem pré-encomendou) e ainda vai durar neste fim de semana da data deste artigo. A versão que me coube analisar correu numa PlayStation 4 Pro e foi possível experimentar livremente toda a (limitada) oferta disponível ao longo destes dias de testes.

Já sabem que Battlefield V é um regresso ao passado em duas frentes. Vamos até ao período histórico da Segunda Guerra Mundial que era também o tema do primeiríssimo Battlefield: 1942 (2002). Já o anterior Battlefield 1 meteu um travão nos conflitos modernos e tirou toda a tecnologia para nos dar um jogo rude (no bom sentido) e bastante “terreno” (e sem parkour ou paredes trepadas). Esse conceito passa para o próximo Battlefield V e para a sua jogabilidade multi-jogador, embora de uma forma obviamente revista, claramente evolutiva e que pretende expandir-se. Contudo, nessa reorientação de temas, também há modificações da jogabilidade que criam algumas incógnitas. Serve esta Beta para colocar algumas essas modificações em escrutínio.

Com muita coisa aprendida com BF1, seria de esperar que BFV só beneficiasse das lições de balanceamento, timing e fluidez extraídas da jogabilidade desse título anterior. O conceito de combate em larga escala, com muitos elementos de destruição de cenários, com veículos à mistura, numa ampla oferta de armas e equipamento distribuído em classes distintas, está de volta. Afinal, essa é a imagem de marca da série e não podia, simplesmente, desaparecer. Também estarão de volta os modos de jogos mais populares, estando nesta Beta o incontornável modo Conquest e uma nova versão de um outro modo desejado, Grand Operations. Outros modos serão adicionados no jogo final, conforme este outro artigo.

Como palco, temos duas regiões para explorar, abordando importantes conflitos reais que aconteceram nesta guerra na região norte da Europa. Arctic Fjord na Noruega e Rotterdam na Holanda, são mapas completamente diferentes um do outro, ambos disponíveis no modo Conquest. Se o primeiro nos leva para uma paisagem gelada rodeada de bonitas montanhas, o segundo leva-nos para a pacata cidade de Roterdão, prestes a ser devastada pela guerra. No modo Grand Operations, podemos ainda ver mais dois mapas diferentes da região do Fjord, dando-nos uma boa perspectiva desse mapa. Mesmo assim, desde a primeira hora que Roterdão é claramente o meu mapa preferido.

Contem também com toda a sorte de armas e equipamento típico desta era, inclusive veículos e unidades de suporte. Os lendários “behemoths” de BF1, chamam-se agora Reinforcements e são chamados pelos Squad Leaders ao invés de activados por condições da sessão. Vão reconhecer imensos veículos desta era, como o mítico avião Spitfire ou não menos emblemático tanque Tiger I. No que toca a unidades de desequilíbrio do campo de batalha, terão armas estacionárias que podem ser movidas, ataques em larga escala com rockets e até poderão receber recursos lançados de paraquedas. E comecem a habituar-se a obstáculos ou fortificações por todo o lado, uma novidade sobre a qual já irei falar.

Também as classes em jogo (Assault, Recon, Medic e Support) fazem o seu regresso, embora com algumas diferenças. Já falámos das Companhias, que são uma interessante adição e que representam um claro convite à especialização de cada personagem, facilitando a típica troca de papéis em jogo. Cada classe tem agora algumas novas habilidades únicas. Por exemplo, o médico é o único que pode reviver todos os jogadores, além do seu próprio esquadrão. Outro exemplo, é o batedor que tem uma habilidade que lhe permite correr mais depressa se estiver em baixo de energia. Cada classe exige uma forma de jogar diferente, tornando cada elemento complementar ao outro membro da nossa Companhia ou Esquadrão. E é possível evoluir cada classe com uma árvore de evolução que, confesso, achei algo complexa para o efeito.

Disponível nesta Beta também está uma breve introdução à mecânica de Tides of War. Esta é uma espécie de campanha social a longo prazo, com objectivos comunitários. Bem nos lembramos que a DICE adora lançar objectivos para a comunidade e esta parece ser uma evolução dessa lógica. Neste capítulo exclusivo da Beta, “Shock Troopers”, temos um conjunto de desafios para cumprir até ao dia 9 de Setembro. Em troca do seu cumprimento, iremos receber uma dogtag exclusiva no jogo final. Este é, aliás, o tipo de recompensa que irão receber em futuros capítulos: itens cosméticos. A DICE promete que Tides of War terá um papel muito maior depois do lançamento de Battlefield V e que este é só um aperitivo.

E é isto. O conteúdo disponível tem o único objectivo de suportar a fase Beta nestes dias. O intuito destes testes não é mostrar conteúdo mas saturar os servidores com jogadores para testar a infraestrutura informática. O que temos para testar é francamente limitado e, como devem perceber, tudo o que fizerem nesta Beta não transita para o jogo final. Assim sendo, prefiro avaliar o estado dos mapas, o design ou a oferta geral apenas quando o título final for lançado em Novembro. Nesta fase actual, prefiro, isso sim, falar da jogabilidade. Isto porque é essa interacção que pode angariar ou afastar jogadores, independentemente do grafismo bonito ou da quantidade da oferta.

Pelo que acompanhei desde que o jogo foi demonstrado ou testado publicamente (houve duas Alphas fechadas antes desta Beta), há aqui uma clara evolução da jogabilidade. Muitas das mexidas são subtis no início mas tornam-se depois bastante evidentes, sobretudo para quem já joga Battlefield há algum tempo. Uma das novas orientações que saltam à vista é a construção de trincheiras e fortificações. Claramente que há aqui uma “chamada” a Fortnite mas, adiante. Esta funcionalidade está disponível para criar defesas e até permite à classe de Support construir algo mais elaborado, como estações de reabastecimento, por exemplo. Não me parece fazer muita falta ao jogo e até pode criar situações francamente injustas. Certamente precisa de equilíbrio no jogo final.

Noutros lados, notarão que também há um foco muito mais vincado para os esquadrões, que finalmente funcionam como o pretendido. Agora entramos sempre num esquadrão antes mesmo de entrarmos na sessão, por exemplo. Continuamos a obter pontos de esquadrão e a poder fazer spawn nos jogadores do nosso grupo, mas nota-se uma maior ênfase para o jogo de equipa com mais recompensa por acções em grupo. E é importante que não nos isolemos desta equipa. Agora temos pouco tempo para pedir ajuda se cairmos e só mesmo os membros do nosso esquadrão podem fazer-nos revive (ou, como já disse, um qualquer elemento da classe de médico).

Eventualmente, também notarão que os nossos bonecos digitais foram ao ginásio. Já em BF1 foram introduzidas diversas mecânicas bem vindas, como contorno de obstáculos automático a fazer mira ou os saltos igualmente automáticos por cima de objectos estáticos. Em Battlefield V as personagens possuem agora mais uns novos dotes de movimento. Agora, já podem correr agachados, disparar para os lados enquanto deslizam depois de uma corrida e até deitar de costas enquanto estão agachados. Agradeçam à liberdade de movimentos trazida por R6: Siege.

Pegando nas armas, esperem uma panóplia de “ferramentas” típicas da época, como não podia deixar de ser. Desde as lendárias MP40 ou M1A1 Carbine, até às populares Gewehr 43 ou SMLE, todas parecem ou bastante familiares (estas duas últimas presentes em BF1) ou, pelo menos, intuitivas. Infelizmente, algumas parecem mais populares que outras, talvez porque o equilíbrio de danos ou de mecânicas ainda precise de uns ajustes. É o caso da infame StG 44. Felizmente, as armas estão condicionadas às classes e acabamos por não sentir uma real “moda” no armamento. Mesmo assim, a minha impressão é que esta arma em particular precisa de uma pequena revisão.

De um modo geral, senti que a jogabilidade é reminiscente do jogo anterior, com a mesma dose de diversão, pelo menos. O que é algo positivo. Só achei que a acção fica um pouco condicionada demais pelos efeitos visuais. Sobretudo em Roterdão, a destruição, o fumo e o pó são tão omnipresentes que chegam mesmo a dificultar tudo o resto. Alie-se a isso uma clara dificuldade em encontrar adversários neste caos e instala-se a confusão. Depois, parece-me que os controlos precisam de alguma revisão em termos de precisão com algumas armas. Tudo isto pode ser sintomático de um novo jogo para quem está habituado ao anterior. Espero que seja só isso.

Contudo, na tradição de uma qualquer fase Beta, encontrei outro tipo de problemas que, penso, não deviam estar presentes nesta fase, tão perto que está do lançamento. O jogo tem óptimo aspecto de um modo geral, em mais uma grande representação visual da DICE. Contudo, o som do jogo é capaz de ser dos piores que jamais encontrei. A origem dos sons é estranha, nem sempre ouvindo a origem dos tiros, por vezes só mesmo os impactos das balas. Suspeito que seja uma falha de áudio, mas o intuito pode ser dar mais realismo ao jogo. Na realidade, se um tiro for disparado à distância, podemos nem ouvir o disparo, apenas o silvo da bala. Mas, recordo que isto é um jogo e a nossa percepção espacial aqui é obviamente diferente.

Enfim, as Betas servem para isto. Encontrar pontos de equilíbrio para ajudar os estúdios a balancear a jogabilidade. Curiosamente, esta foi uma das minhas melhores experiências técnicas numa Beta, com muito poucos erros de ligação, quase nenhuma demora a entrar em jogo e apenas uns ligeiros problemas de Lag. O que é de louvar, sobretudo se nos recordarmos dos imensos problemas do chamado Netcode que o mítico Battlefield 4 tinha. Obviamente que teremos de esperar pelo jogo final para confirmarmos se o código está mesmo optimizado. No entanto, como estes testes visam mesmo testar a saturação do servidor, parece estar tudo OK.

Esta Beta pública não é o jogo final mas traz boas perspectivas sobre o que aí vem. Não sou particular fã de algumas das novidades de jogabilidade mas também acredito que a DICE ainda vai mexer no jogo para equilibrar mais as coisas. Pode ser que as construções de fortificações não criem tantas situações injustas, por exemplo. Também achei que as classes estão um pouco complexas demais. Mas, talvez aqui seja o veterano de Battlefield a reclamar. Aquele fumo e aqueles sons é que não podem ficar sem um polimento. Infelizmente, depois desta Beta não há informação de mais algum teste. Resta-nos confiar na DICE ou que, entretanto, uma nova Beta ou Demonstração seja anunciada.

A minha avaliação geral da Beta é positiva mas… soube a pouco e reclama algumas melhorias. Venha o dia 20 de Novembro, data em que Battlefield V nos chega para a PlayStation 4, Xbox One e PC. Esta fase de testes públicos Beta continuará até ao dia 11 de Setembro e é aberta a todos os interessados de forma gratuita em cada plataforma.