Pela mão da Ubisoft, o legado de Tom Clancy está para durar. Depois das adaptações de Rainbow Six ou Ghost Recon, o trabalho do falecido autor continua, com a sua visão a fazer nascer mais um grande jogo. The Division está quase a chegar, cheio de vontade de se tornar um dos melhores jogos do momento, sobretudo porque ameaça seriamente a concorrência.

Depois de uma fase de testes Alpha em Dezembro, exclusiva para Xbox One, é agora a vez de testarmos a fase Beta deste jogo. Chegou ontem mesmo em primeira mão à XB1 e chega hoje à PlayStation 4 e PC. E não perdemos tempo a meter mãos à obra. Entre a enorme campanha de marketing da Ubisoft, o interesse da imprensa mundial e a nossa curiosidade como jogadores, a expectativa é assinalável. Claro que, testar uma Beta nunca será o mesmo que testar o jogo completo. No entanto, esse está ainda um pouco longe e, por enquanto, temos este aperitivo para saciar essa tal curiosidade.

Por esta altura, já deverão saber a história de Division. Um vírus mortífero espalhou-se de forma galopante através de notas bancárias, colocando a humanidade à beira da extinção. Entre a loucura expectável de lutar pela sobrevivência com os extremos da mente humana em pânico, uma divisão especial de agentes foi activada de emergência para lidar com o caos e tentar trazer um pouco de ordem. A ideia é que estes agentes representam a última esperança de recuperar a cidade de Nova Iorque. Desde a criação de bases avançadas de assistência, salvamento de reféns, angariação de recursos e combate a grupos insurgentes, cada agente tem um duro papel a cumprir. E nós somos um desses agentes. Está lançada a premissa para um grande jogo de acção e sobrevivência.

Começo por vos explicar o género: The Division é um jogo online de combate na terceira pessoa com sistema de cobertura. Possui características de Role Play com progressão e evolução da personagem, sobrevivência, angariação de recursos, criação de bases, crafting (não disponível na Beta, infelizmente), além de imensos coleccionáveis para encontrar, ora não fosse este um jogo da Ubisoft. Pode ser jogado a solo ou em modo cooperativo até cinco jogadores por esquadrão na área de exploração PvE (Player Vs Environment), com ou sem matchmaking. Há também uma área chamada de Dark Zone onde a acção passa a ser alternante entre cooperativa (PvE) ou competitiva (PvP), mas sobre isso já falarei, porque é, de facto, o melhor que este jogo oferece.

Na componente PVE, digo-vos que joguei dois jogos distintos durante esta Beta. Comecei por jogar a solo e o jogo ofereceu-me um ritmo lento e progressão igualmente lenta, com missões algo complicadas de resolver sozinho. Depois juntei-me a dois amigos e joguei um jogo muito diferente. De facto, fica logo claro que The Division é para ser jogado em grupo, ora não se tratasse de um MMO de acção. Mas acalmem-se se esta sigla vos assusta. O jogo pode ser jogado inteiramente a solo. Só se torna mais fácil em grupo, pelo menos nas primeiras horas, uma vez que começamos com armas e equipamento de menor qualidade.

As missões começam num Hub que funciona como lobby para os diversos jogadores igualmente ligados ao servidor onde estamos. Cada nova base avançada que vamos conquistando (apenas uma na Beta), funciona como “Safe Zone” e é onde podemos receber missões, comprar melhor equipamento e armas, fazer crafting, entre outras actividades. Consoante as bases evoluem, também recebem mais missões e melhor equipamento. Além de que me parece que o objectivo final (controlar a cidade) só pode ser completado se conquistarmos cada vez mais bases e trazermos gradualmente a ordem pública.

Nestas bases encontram vendedores que nos compram equipamento excedente e também vendem armas e equipamento táctico. Além do colete à prova de balas, temos joelheiras, luvas, máscaras de outros itens para proteger a personagem. As armas também podem ser apetrechadas com extras ou até pintadas com cores e padrões. Apesar de poderem comprar com dinheiro de jogo novas peças, saibam que muitas (e boas) peças são adquiridas em missões e a explorar o cenário. Gastar dinheiro, só mesmo se quiserem alguma peça ou arma em concreto. Não gastem dinheiro nas primeiras visitas, acreditem. Ainda sobre a personalização, há diferentes peças de roupa para personalizar o aspecto, embora estas sejam puramente cosméticas e sem qualquer tipo de vantagem táctica.

Como são áreas sem conflito, deve-se aproveitar estas zonas seguras para evoluir a personagem com equipamento principal e secundário (um escudo balístico ou uma granada de controlo remoto, por exemplo) e escolher novos atributos. No entanto, os menus da personagens estão sempre acessíveis em qualquer situação. Além do mapa interactivo, podemos adicionar perks ou novas habilidades nestes menus. Sobre isto, infelizmente, não posso dizer muito porque estas evoluções não estavam disponíveis na Beta.

Atestados e equipados, na altura que saírem dessas bases, entram na zona de conflito. Nova Iorque está a saque. Há arruaceiros que assaltam e ameaçam os poucos sobreviventes e que precisam de uma lição. Na vossa exploração também vão encontrar missões de limpeza de contaminantes, pesquisa por figuras-chave ou do tipo de caça ao homem, busca por recursos para melhorarmos equipamento e bases, simples exploração de áreas e até libertação de zonas. Os meliantes podem estar isolados, mas nunca sozinhos. É preciso agir com prudência, estudando a área e caso encontrarmos oposição numerosa convém não atacar sem um plano. Sobretudo se estamos a jogar a solo. Mas quando as balas começam a voar, temos de sacar da metralhadora.

No que à acção diz respeito, The Division é um jogo sólido e com mecânicas de combate muito bem concebidas. Dominar o sistema de cobertura atrás de muros, automóveis ou outros objectos, é muito importante. Se calhar mais que as próprias armas. Isto porque, por mais que dominem o recuo e mira da vossa M4, os inimigos vão estar todos a disparar para vocês e a arremessar granadas de fumo ou explosivos. Abriguem-se ou rapidamente morrem, mas não se esqueçam de responder a fogo.

Há uma variedade de armas, entre espingardas de assalto, caçadeiras, metralhadoras pesadas, pistolas-metralhadoras, espingardas de sniper ou simples pistolas. Podemos transportar duas armas ligeiras ou pesadas e uma única pistola (e ter ainda mais armas na mochila, trocando via menu). Temos também granadas diversas e até tipos de munições diferentes que devem reservar para adversários mais fortes.

Rapidamente esgotei as missões de PvE na zona de conflito e depois de uma visita à base para vender material supérfluo e abastecer-me de munições e medkits, sou informado que há uma nova área para explorar: A tal Dark Zone. Após uma breve introdução, fico a saber que esta é mesmo uma “terra de ninguém” onde agentes e meliantes lutam entre si por simples saque de armas e equipamento diverso. Mas este saque está contaminado e é preciso evacuá-lo por helicóptero para ser limpo e então enviado para a nossa base. Então e como é que isto funciona num ambiente PvP (Player Vs Player) com fogo “amigo” e inimigo à mistura?

Basicamente estamos por nossa conta, mas é a nossa escolha a foma como usamos a violência. Se não alvejarmos ninguém, podemos cooperar por angariar material contaminado com outros jogadores, eliminar inimigos de Inteligência Artificial, chegar à zona de extracção, chamar o helicóptero e evacuar o material. Acontece que pode sempre aparecer algum elemento que abra fogo, intencionalmente ou não, contra outro jogador humano.

Se isso acontecer com uma ou duas balas, o jogador passa a ter uma barra vermelha de elemento hostil. Se o fogo cessar, essa barra regressa a branca de elemento não-hostil, com um temporizador de cooldown. Se o fogo continuar, o infractor passa a ser designado por Rogue e aparece no mapa de todos com um crânio vermelho. O cooldown, neste caso, pode chegar a vários minutos, com o jogador em estatuto Rogue (e todo o esquadrão se jogarem com amigos) a ser o alvo de toda a gente.

Isto é simplesmente genial porque, pela primeira vez, podemos escolher cooperar com outros ou simplesmente alvejá-los, sobretudo se agirem forma incorrecta. Até porque, se eliminarmos um jogador humano, o seu loot contaminado pode ser apanhado por nós. A Dark Zone possui imenso equipamento raro (azul ou roxo) e até tem uma loja específica com dinheiro exclusivo desta zona. A evolução nesta área é muito mais rápida (pelo menos parece) e o perigo é muito mais assinalável. Encontrei imensos jogadores a jogar de forma cooperativa, apenas eliminando IA. Também encontrei oportunistas que queriam apenas furtar loot. Saibam, ainda, que nesta zona, além da comunicação via auscultadores com o vosso esquadrão, também ouvem os jogadores no som geral do jogo por proximidade, outra característica fantástica.

Falei acima de “equipamento raro (azul ou roxo)” e aqui aproveito para dizer que não consigo deixar de achar que este jogo tem diversas inspirações no jogo Destiny (Bungie). O equipamento pode estar em corpos, caixas, mochilas ou arcas espalhadas pelo cenário e possui cores distintas de acordo com o seu grau de raridade. Também podemos destruir equipamento para obter materiais primários. Cada peça também tem níveis de qualidade acumulada, assim como as armas que também podem ter perks e bónus específicos. Até mesmo na tal base inicial ou Hub funciona tal e qual como a Guardian Tower de Destiny, com os vendedores e tudo.

Afinal, é também um jogo de acção com forte componente social e o sucesso do jogo da Bungie não podia deixar a Ubisoft indiferente. A grande questão é que este The Division possui um ADN muito (mesmo muito) próprio e realmente bom. Não se sabe bem quão distante ou próximo será o futuro de Division com Destiny em termos de semelhanças. Espero, honestamente, que o que testei nesta Beta seja muito mais ampliado, mas não se corra o risco de criar mais um jogo para simples Grind de pontos. Para já, não parece ser esse o caso no PvE, mas no PvP existe uma certa falta de objectivos, além de angariar mais e mais equipamento contaminado para melhorar a personagem. O espectro do Grind parece pairar lá no fundo. No entanto, talvez o jogo final amplie a experiência desta zona com missões específicas PvP ou PvE cooperativo. Veremos.

Bom, já tenho aqui um texto digno de uma análise, mas falta ainda falar de uma das características mais apreciadas neste jogo: A qualidade visual. A versão testada pelo WASD (Xbox One) trouxe-me uma Beta absolutamente deslumbrante. A destruição de Nova Iorque com ruas sujas com lixo, automóveis abandonados, corpos pelo chão, apartamentos e lojas pilhadas, entre barreiras de protecção e áreas contaminadas, é uma experiência única. As texturas, cenas intermédias, efeitos visuais e animações (sobretudo em combate), além dos modelos tridimensionais e iluminação, passando pelo ciclo de noite e dia e meteorologia dinâmica (desde dias solarengos a nevões) e o design de menus e interacção deste jogo, tudo é simplesmente genial.

Queria só mencionar em jeito de finalização que, aliada a isto tudo que leram acima, está uma versão Beta muito estável, com muito poucas falhas de sincronismo e apenas um ou outro “congelamento” esporádico. Afinal, é uma fase de testes de um jogo inteiramente online e seria de esperar inúmeros problemas, sobretudo com um passado menos feliz em alguns títulos da produtora. Será que é desta que a Ubisoft terá um lançamento sem problemas?

Veredicto

A Beta é tão escassa. Queria mais, muito mais. Em poucas horas terminei todas as missões PvE. A Dark Zone ajudou a expandir um pouco mais a experiência entre combates improvisados entre facções de jogadores humanos ou raids a zonas controladas por inimigos artificiais. Graficamente deslumbrante, tecnicamente impecável e estável, com mecânicas muito bem concebidas e alguns momentos intensos de combate, aviso que se não experimentarem, vão-se arrepender. Infelizmente, a beta vai terminar já no Domingo. Apressem-se, porque esta experiência promete ser uma das melhores que vão experimentar este ano. E depois só vão poder jogar em Março…