Os jogos experimentais e que inovam possuem sempre uma mistura de estranheza e fascínio. Se, por um lado, ficamos estranhamos as lógicas e mecânicas fora do comum, talvez fiquemos curiosos com o que aí vem. É o caso de The Tomorrow Children, um projecto que tivemos ocasião de testar durante a Beta Fechada que terminou no sábado passado.

Em conjunto com o SCE Japan Studio, a Q-Games traz-nos um jogo exclusivo para PlayStation 4 que tinha tudo para ser interessante. Gráficos e animações de um estilo muito próprio, com ambientes claramente inspirados no período da Guerra Fria, no que parecia ser um jogo de mundo aberto de construção, não muito diferente de Minecraft e em que nem sequer falta uma espécie de sistema de crafting. Com esta versão de testes Beta fechada, pude finalmente testar o que aí vem. E o que testei deixou-me interessado pela qualidade visual, mas desapontado pelo resto.

Para já, devo realçar a forma como estive literalmente perdido, tanto no enredo como na própria jogabilidade. Depois de alguns minutos a tentar perceber a lógica de uma secção, fui de de imediato transportado para outra secção sem mais explicações. Sim, há uma personagem que dita umas frases e texto de tutorial que explicam o que se vai passando. Mas, “quem é aquela pessoa” e “o que estou eu aqui a fazer”, por exemplo, são perguntas cuja resposta é difícil de obter nos primeiros minutos.

Basicamente, incorporamos uma rapariga clonada, uma espécie de trabalhadora do proletariado, que está a participar numa experiência que correu mal para o governo Soviético. À sua volta, está o Void, um local desprovido de vida, mas curiosamente cheio de recursos para escavar e construir cidades e quase tudo o que há nelas. Para nos orientar, uma série de ecrãs com uma personagem que, à falta de melhor definição, chamei de “Russo creepy”. Desculpem, é mesmo assim. É preciso andar de autocarro (sim, autocarro) de cidade em cidade ou de ilha em ilha, pelo Void afora. Não convém ir a pé porque ou afundam em areia movediça ou são atacados por inexplicáveis bonecos gigantes… Já deu para perceber o grau de loucura do jogo? Não?

Comigo apareciam mais jogadores, Beta testers sem dúvida. O trabalho de construção de cidades, supostamente, é feito em conjunto, uma vez que uma pequena vila que comecei lentamente teve cada vez mais edifícios que não construí. No entanto, não há quase nenhuma interacção com os demais jogadores, além de uns emotes que permitem cumprimentar e pouco mais. E caso não tivessem o nick da PSN por cima da figura, provavelmente nem me apercebia que eram outros jogadores.

Passado a frustração de não saber bem o que fazer, a premissa do jogo até é simples: Garantir que temos connosco lanternas para não morrer na escuridão e uma picareta para escavar, apanhar o autocarro para uma zona de recursos, escavar cubos gigantes e outros locais à procura desses recursos, apanhar o autocarro de volta para a cidade com o fruto desse trabalho, depositar recursos numa área reservada e disponível para todos e com eles construir mais edifícios e melhorar a cidade. É o sonho Soviético! Mas não pensem que é só chegar e construir. É preciso resolver pequenos puzzles que funcionam como um mini-jogo e só depois terão direito a uma placa que vos permite construir o edifício genérico em questão.

Depois… bem, depois é o aborrecimento de fazer tudo isto repetitivamente e ter quase nenhuma recompensa. Temos imensos edifícios e objectos para construir é certo, mas o processo é insípido, uma vez que estes surgem pré-fabricados do chão. Além disso é um processo é moroso, desde o reunir dos recursos até aos próprios puzzles para os criar. E depois, pode ser tudo em vão, uma vez que é normal que as pequenas cidades sejam atacadas por monstros gigantes. Se não tivermos canhões e outras defesas, ou se os tivermos mas formos poucos em número na defesa da cidade, esta não vai durar muito tempo. Mais vale apanhar o metro para outra povoação mais populosa e mais segura, mas aí depois fazemos pouca diferença no seu crescimento.

Tratando-se de uma antevisão de uma versão Beta, porém, tenho de assinalar que o jogo está visualmente agradável com um design único e animações e texturas interessantes. Acima de tudo, estão os efeitos visuais como reflexos, sombras ou iluminação todos renderizados em tempo real e dignos dos melhores filmes de animação. Também como conceito de jogo, ultrapassando a falta de informação inicial, até tem lógicas bem concebidas, baseadas numa evolução estruturada e com interesse em trabalhar continuamente para melhorar a respectiva experiência de jogo, com mais e melhores objectos e edifícios.

No entanto, seria óptimo ter mais informação sobre os objectivos e talvez mais tarefas e missões menos aborrecidas. Também era bom obter um rumo ou uma linha de raciocínio sobre a nossa missão. Idealmente, a nossa interacção com os demais jogadores devia ser mais concreta e menos superficial. Gostava muito que se pudessem criar comunidades e “vestir a camisola” pela nossa cidade, trabalhando no mesmo ideal. No rigor, é isso que fazemos, mas não é o que sentimos a jogar se os demais jogadores aparecem e desaparecem aleatoriamente, ou não aparecem de todo.

Talvez não seja ainda muito justo avaliar o jogo por esta Beta. Vamos acompanhar com interesse as evoluções deste The Tomorrow Children para ver se a oferta e interacção se expande. No entanto, creio que o objectivo de ser um jogo de construção e evolução comunitária fica deficitário e é inevitável não acharmos que se repete demais. Mas não serão assim todos os jogos do género de construção?

Veredicto

Há já algum tempo que este The Tomorrow Children faz parte do portfólio dos exclusivos Sony para 2016. A avaliar por esta versão de testes Beta que tivemos oportunidade de acompanhar, porém, parece-nos apenas mais um jogo de construção, sem grande substância e repetitivo. Visualmente bonito e com uma qualidade técnica invejável, parece algo insípido e dissipado entre tantas missões e objectivos relativamente aborrecidos. Uma vez dominadas as mecânicas, porém, até se torna interessante com uma progressão lenta mas constante. As recompensas são agridoces, uma vez que tanto podemos sentir que a cidade está a evoluir pelo nosso trabalho, como achamos que só estamos a perder tempo. Depende do empenho que damos a The Tomorrow Children. E confesso que uma Beta de poucos dias não chegou para muito mais.