O mundo tal como o conhecemos desapareceu. Não se sabe como, não se sabe quando, uma inundação de proporções bíblicas quase que obliterou todos os traços da nossa civilização. Quase… Ao longo de um infinito e vertiginoso rio, aqui e ali surgem pequenas ilhas. Algumas maiores do que outras, mais podem ser consideradas como pequenos e teimosos ecos de tempos idos que insistem em não cair nas profundezas do esquecimento. Certas ilhas ainda têm o nome de quem por lá fez o seu lar, mesmo que temporário. O tempo passou, mas elas ainda lá estão, sob a constante ameaça de um rio incansável e voraz, dando guarida e alento ao que agora por lá passar. Ou a quem… 

No meio de toda esta desolação, faça dia ou faça noite, faça sol ou faça chuva, há uma chama que não se extingue; uma frágil luz na penumbra lançada sobre o mundo por esta malfadada inundação.

Quem a empunha é uma menina a quem chamamos Scout, acompanhada pelo seu fiel companheiro canino, Aesop. Não fosse por ele, estava completamente sozinha. Sem um local ao qual possam chamar de lar, nada os prende. Une-os apenas o afecto que nutrem um pelo outro e o objectivo de sobreviver a mais um dia. Assim, em busca de mantimentos, juntos terão de atravessar o rio, numa jangada improvisada, e que de segura, pouco ou nada tem.

Entre rochedos e destroços, Scout rema desesperadamente para evitar o embate que lhes possa custar a vida. Só que por vezes, o choque é inevitável, bem como as consequências. Quando as maleitas ocorrem, como doenças devido ao excessivo contacto com a chuva ou simplesmente por cair ao rio, assim como fracturas devido aos embates com a jangada, aumenta o sentido de urgência a Scout e Aesop.

Este é um mundo cruel, por vezes até implacável. Como se não bastasse o enorme perigo que é enfrentar o rio, é impossível esquecer a sensação de encontrar uma ilha vazia. É arrebatador, quando o sentido de urgência é enorme e o tempo urge, aperceberem-se que o Mundo ” se está nas tintas” para a dor e sofrimento que vai nestes dois companheiros de viagem. Mas a chama não se extingue, o pouco que conseguirem encontrar, aproveitam-no, guardam-no e usam-no para criar algo que os ajude na sua viagem. Nem a pior das intempéries nem o mais feroz lobo ou a mais numerosa alcateia irá impedi-los de sobreviver.

Depressa remam para outra ilha. Não podem definhar. Não depois de tudo o que percorreram e do que já enfrentaram. Há de haver algo mais neste mundo tão vasto que justifique tanto sofrimento e pelo qual valha a pena lutar. Chegam por fim a outra ilha e finalmente, a um sítio onde podem acender uma lareira, cuidar dos seus ferimentos, saciar a fome, a sede e… descansar, nem que seja por umas breves horas.

Foi numa dessas ilhas onde Aesop se aproximou de Scout com algo inesperado: um rádio. Mais surpreendente ainda é que está a transmitir algo. Para saberem o que é Scout e Aesop precisam de encontrar um local mais elevado ou então a fonte da transmissão. Finalmente, a sua viagem ganha sentido…

Aprovado através da plataforma Kickstarter, a Molasses Flood traz até nós um roguelike de sobrevivência como nenhum outro. Com membros vindos de outros projectos de referência como Bioshock, Halo e Rock Band, The Flame in the Flood tem já meio caminho andado para o sucesso. Por enquanto encontra-se ainda na fase Beta disponível para os que financiaram este projecto e também para membros da imprensa, pelo que ainda há muito caminho para trilhar até ao lançamento oficial.

Visualmente este é um título que não deixa ninguém indiferente, nota-se perfeitamente a mão da malta do Bioshock tanto em termos artísticos como no próprio sistema de loot que depressa se torna tão familiar. No entanto, tal como foi descrito em cima, este é um mundo cruel e a discrepância entre os perigos que temos de enfrentar ao navegar rio abaixo e os mantimentos que encontramos, ou não, nas ilhas onde escolhemos atracar é muito grande. Porque é que o rio não pode ser uma fonte de água e porque é que não podemos usar aquelas pedras que fazem parte do cenário? Foi o que alguns perguntaram, principalmente nos momentos de maior urgência. Não as fiz, apesar de encontrar aí uma enorme contrariedade, especialmente no que diz respeito à água mas concordo que há de facto uma grande e, por vezes, injusta arbitrariedade no que toca aos recursos que podemos (ou não, lá está) encontrar.

Acreditem que é fácil contornar esse aspecto. Além disso os produtores ouviram e agradeceram à comunidade bem como a alguns membros da crítica especializada que apontaram esses pequenos tropeços e prontificaram-se a fazer algumas alterações, o que é de louvar. The Flame in the Flood ainda está longe de ser lançado mas aqui para nós, parece que já se encontra no início de uma longa amizade.