Diria que a série Mirror’s Edge criou um género único. E que tal colocar saltos acrobáticos de plataformas na primeira pessoa, com momentos de acção pelo meio? Muitos jogos já copiaram a fórmula, com mais ou menos sucesso. Resta-nos perceber se a própria DICE consegue recuperar a essência de Faith neste Mirror’s Edge Catalyst.

Como tivemos acesso à fase de testes Beta para este novo jogo, decidimos voltar à cidade de Glass para corrermos com a protagonista por terraços e telhados. A premissa do que nos foi dado a conhecer em trailers e imagens de promoção deu-nos a perspectiva de estarmos perante um grande jogo em potencial. Nem que fosse pela experiência visual proporcionada pelo fantástico motor gráfico Frostbyte, não nos importávamos que nada mudasse em termos de acção do primeiro jogo. Mas a DICE falou de uma jogabilidade diferente, com mundo aberto e novas mecânicas que prometiam uma evolução positiva para este segundo título. Vejamos se é assim…

De promessas está a Indústria cheia. E já sabemos como a DICE deprime mesmo os mais fervorosos fãs com grandes inovações visuais que acabam por desapontar como um todo. Ainda não tivemos um título novo, mas o último Battlefield 4 é um bom exemplo de como a ambição da produtora Sueca está a dar lugar a produtos pro-forma embrulhados em “bonitos pacotes”. Mirror’s Edge Catalyst é uma vítima da espectativa. E talvez esta versão Beta não faça justiça ao jogo final que surgirá mais à frente, mas é bom que o adiamento recente para Junho dê tempo para um polimento que considero essencial.

Vamos por partes, a Beta que tivemos é mais uma demonstração das novidades que uma real avaliação técnica. Começamos a “apanhar” a história depois de Faith Connors ser libertada do cativeiro. A protagonista, aparentemente, meteu-se em apuros ao ser capturada numa acção irresponsável. Perante o descrédito dos seus companheiros Runners, precisa provar que ainda é capaz de combater o regime totalitário da cidade de vidro, recorrendo aos seus dotes acrobáticos para escalar edifícios, deslizar por obstáculos ou derrubar adversários no menor espaço de tempo.

E é isto, basicamente, que faz com que este jogo seja algo desapontante, pelo menos no punhado de missões que pudemos testar nesta Beta. Ao querer ser jogado a correr, constantemente, quase esquecendo a acção, Mirror’s Edge Catalyst é um jogo de perícia, que deixa o uso de armas de fogo do primeiro jogo, privilegiando o combate corpo-a-corpo ou a fuga pura e simples. Se empurrarmos todos os inimigos para caírem no precipício, não passa de um campeonato de Parkour em telhados e terraços. Os melhores tempos entram numa tabela mundial e até podemos criar as nossas próprias corridas… acção? Pouca…

Mas o que menos gostei desta Beta é a inequívoca vontade de ser um jogo “imperdível”. Faz isso, substituindo a nossa própria intuição por um auxiliar chamado de “Runner Vision” que nos “leva ao colo” ao dizer para onde devemos ir. Embora possamos explorar o vasto mapa da cidade, a rota está traçada por nós. Se no primeiro jogo haviam apenas superfícies vermelhas inteligentemente posicionadas que nos permitiam usar intuição, aqui é uma descarada linha que nos diz exactamente o que fazer. Talvez venha a ser possível desligar esta linha, mas não foi assim que o jogo foi criado.

Podem nem considerar a ajuda da Runner Vision como um ponto negativo, mas já tenho vindo a falar do “facilitismo” dos jogos modernos noutros artigos. Uma das características mais apreciadas do primeiro jogo era olhar para os mapas como puzzles onde teríamos de encontrar o melhor trajecto. Aqui temos de fazer o caminho pré-definido no mínimo tempo possível. O que num mapa tão vasto de mundo aberto não faz qualquer sentido. Sim, podemos até ignorar a linha e seguir pelo caminho que quisermos, mas as alternativas nem sempre são melhores, uma vez que a linha desenha invariavelmente um trajecto óptimo.

Além das missões da história principal, que não variam muito de ir buscar e entregar mensagens ou descobrir determinados objectos, o pouco do enredo é revelado por cenas intermédias de alguma qualidade, onde tentamos perceber um pouco do destino de Faith e dos seus companheiros. Além disso, há contra-relógios, corridas ou pequenos coleccionáveis para encontrar que nos dão mais alguns detalhes da vida em Glass e que, em conjunto com os pontos de experiência, ajudam a evoluir a personagem. Para essa evolução, temos um menu que permite aprender mais manobras, ganhar mais protecção contra danos e até aumentar a energia. Nada de realmente inovador aqui.

Uma das apostas da DICE está na componente social. Como já mencionei, podemos criar e partilhar corridas, em provas comunitárias. Estas aparecem no mapa por onde passamos, chegando a ser uma inundação de ícones. As missões comunitárias não são contra outros jogadores directamente, mas contra o seu tempo em corridas competitivas contra-relógio. Por causa das inúmeras quebras de ligação ao servidor nos dias da Beta, confesso que não perdi muito tempo a testar estas corridas. Até porque não possuem grande interesse para o desenrolar do nosso jogo, servido os tempos batidos só para efeitos de entrada em tabelas de tempo mundiais.

Também não foi possível testar todos os componentes sociais do jogo. O nosso perfil pode ser, aparentemente, personalizado, até mesmo por criar logótipos que podemos espalhar por diversas zonas do mapa numa espécie de “estive aqui”. Mas como a personalização esteve bloqueada, não sei bem qual o objectivo desta componente. Basicamente pude fazer “tag” em alguns locais e vi que outros amigos da minha lista fizeram o mesmo.

A versão Beta que analisámos foi para PlayStation 4 foi enviada pela DICE, além de uma outra versão Xbox One gentilmente cedida pela Microsoft. Deu para fazermos um ponto de comparação mas, ficando-nos nas consolas. E não vimos grandes diferenças. Até porque a correr a apenas 900p, mesmo com os seus quase constantes 60 FPS (há algumas quebras menores em alguns pontos), não fiquei realmente impressionado com ambas as versões de consola. Sim, graficamente tem imensos pormenores de qualidade, mas não chegam à qualidade dos vídeos promocionais já lançados, claramente a correrem numa versão PC cheia de “sumo”.

É preciso ter em conta (uma vez mais) que esta antevisão foi feita numa versão Beta, mas é inevitável que tenhamos de destacar alguns modelos pouco trabalhados, as sombras cheias de efeito “serrote” (anti-aliasing mal optimizado), texturas pouco definidas à distância e uma clara quebra na qualidade geral dos cenários em corrida, convenientemente “arrastados” com motion blur nas extremidades do ecrã. Quero mesmo acreditar que isto foi só um primeiro vislumbre de um jogo em desenvolvimento. Afinal, no arranque da Beta somos informados que esta versão não pretende representar a versão final do jogo. Se assim fosse, a DICE não ficava muito bem na fotografia.

Veredicto

Queremos mesmo jogar Mirror’s Edge Catalyst na sua versão final. Se nada for mudado na jogabilidade, porém, a acção parece um retrocesso. Sim o jogo é mais fluido e convida a mais e melhor parkour, mas o combate salta para segundo plano não deixando Faith pegar em armas. E já não há a busca pelo melhor trajecto, sendo esse dado por defeito numa irritante linha vermelha. A componente social pode ser interessante ao início mas meramente acessória e em nada contribui para a nossa carreira. A nossa experiência com este novo capítulo da série, parece-nos agridoce. No entanto, falta algum tempo para o seu lançamento final e, estamos certos, o feedback da comunidade vai ser essencial.