Mais infoProdutora: MachineGamesEditora: BethesdaLançamento: 28/10/2017Plataformas: , , Género:

Envolto em bastante expectativa e alguma controvérsia, Wolfenstein II: The New Colossus já chegou. A MachineGames e a Bethesda empenharam-se em recuperar este franchise, sem perder a sua essência, mesmo que meio mundo o considere ofensivo.

A herança deste título é simples. O primeiro Wolfenstein era um jogo em que um soldado aliado se infiltrava numa base do Terceiro Reich e matava Nazis. Nunca houve aqui uma segunda intenção ou algo pouco explícito. Desde então, toda a série manteve esta premissa, mesmo que alguns países o censurassem (na Alemanha, por exemplo, a suástica é removida). E é preciso ter uma memória muito (demasiado) curta para não concluir que o Nazismo, como um ideal, foi uma fase negra da humanidade, ou da falta dela. Por isso, quando elementos da Extrema Direita política atacaram a publicidade do jogo, a produção não recuou um milímetro. Podiam reclamar da violência gráfica, muitas vezes grotesca, mas não… reclamaram do “ataque” aos ideais Nazis. Isto porque a opinião pública actual está completamente perdida e distorcida. E quando acham que o Nazismo “até foi porreiro”, é preciso um jogo fazer serviço público? Ao que chegámos, realmente.

A história deste The New Colossus não podia ser mais rude e visceral. Não há qualquer glamour na epopeia de William “B.J.” Blazkowicz em destronar o Nazismo. Na sua infância, o próprio pai do herói era um monstro por si só. Racista, espancava a sua mulher judia e não poupava o próprio filho de uma violência extrema. Ao ponto de obrigar a assassinar o seu próprio cão porque namorou uma rapariga negra. De facto, os primeiros instantes deste título não são um jogo propriamente. São uma viagem a um passado sombrio e degradante que podia ser o de qualquer um na época em que alguém achou que o Nazismo tinha de existir. O racismo, a xenofobia e o extremismo de direita criaram o BJ que conhecemos. E logo aí vemos de onde nasceu a vontade de erradicar o fascismo.

Contudo, na actualidade do jogo, BJ não está propriamente no seu auge. Depois dos eventos de Wolfenstein: The New Order, está ferido com gravidade. Os seus amigos tentam salvá-lo mas, não há muito que se possa fazer. Ainda por cima, a infame Frau Engel e o seu exército do Terceiro Reich encontraram-nos a bordo de um gigante submarino que furtaram. Resumido a uma cadeira de rodas, BJ não desiste, porém. Numa sequência de eventos, terá de lutar para sobreviver e salvar, não só os seus amigos, mas também toda a América, agora conquistada pelos Nazis. Sem revelar muito mais, a história é de sacrifício, com alguns momentos dramáticos e, por vezes, bastante gráficos. Estão lá aquelas escolhas difíceis e aquelas ocasiões que dividem muita gente pela sua mensagem forte. Não admira que incomode tantos, é esse o objectivo. Pena que o incómodo nem sempre tenha o rumo certo.

Para combater atrocidades, nada como… ser atroz. Não creio que o jogo seja francamente mais violento que outros tantos jogos no seu género. Tem algumas cenas um pouco gráficas, mas nada de extraordinário. Para mim, é realmente focado em transmitir uma sensação de recompensa, que passa por poças de sangue e explosões avulsas, um Nazi de cada vez. Contudo, se calhar a atrocidade visual é muito mais passiva e passa-se maioritariamente nas cenas intermédias. Arrisco dizer que, se não fossem Nazis e seres mecânicos colossais criados por eles, colocando uns monstros literais ou uns zombies e este podia muito bem ser um thriller de terror.

É incrível a tensão criada pela cena que já expliquei em que o pai de BJ coloca uma caçadeira nas suas mãos e quer obrigá-lo a matar o seu cão. Eu decidi disparar para o lado. Não passa de um cão digital, não é real, mas não deixa de ser uma cena muito forte e violenta a nível emocional. Eventualmente, o Pai de BJ matou o cão, mas não chegamos a ver nada. Muitas vezes, porém, o que está implícito ou perceptível, mesmo não visto, tem uma forte carga emocional, se calhar com mais impacto que o que é descarado.

Essa carga emocional quase que justifica toda a acção exagerada posterior. Todos os tiros certeiros, todas as explosões e todos machados cravados nos peitos de Nazis incautos, parecem pagar pela bala que mata o cão de BJ. Apesar do convite para a acção furtiva, com as interessantes mecânicas que já irei falar, é a abrir fogo que este jogo quer que passemos pelos seus níveis. Mas, não esperem grande realismo no uso das armas ou facilidades no combate.

BJ usa diversas armas com efectividade diferente. Pistolas, espingardas de assalto ou outras armas mais pesadas pode ser usadas de forma convencional ou carregadas em duas mãos. Podemos até fazer combinações entre uma pistola-metralhadora numa mão e uma espingarda de assalto noutra. Obviamente que a precisão é relativa com este esquema. Se querem mirar, terão de optar por uma só arma de cada vez. Mas, onde está a diversão nesse caso? De facto, entrar numa sala e descarregar munições em tudo o que mexe é como irão sobreviver. Não se ponham a tentar fazer mira em salas repletas de Nazis a soltar impropérios. É mandar granadas e expelir chumbo, perguntando o que se passa quando já não houver ninguém em pé.

Como shooter, honra bem as suas raízes. E não estou a falar no facto de poderem jogar o velhinho Wolfenstein 3D numa consola de arcada a bordo do submarino que nos serve de base. As mesmas mecânicas “old school” de shooter veloz, com inventário vasto e pickups de energia, munições e escudo estão intactas. E ainda bem. Há já muitos jogos deste género a apostar no realismo de armas e equipamento. Aqui, podemos disparar balas incandescentes nas pistolas (através de upgrades às mesmas, disponíveis com kits de upgrades que encontramos), usar um lançador de bombas de combustível que explodem remotamente, disparar uma caçadeira rotativa de três canos ou lançar raios laser de um canhão portátil. É realista? Não, não é, mas é muito divertido e tem a sua devida recompensa.

E se dar tiros em Nazis não é convosco (porque estariam a jogar este jogo?), podem sempre optar pela tal acção furtiva que já falei. Notem que, mediante a dificuldade escolhida, os tiroteios podem ser muito intensos e complicados. A Inteligência Artificial tenta flanquear e não vão um de cada vez, mas todos ao mesmo tempo, por vezes de forma quase demente. Se optarem por entrar numa sala de forma furtiva, a detecção é quase sempre inevitável se não tiverem cuidado. O objectivo é seguir os radares que mostram onde estão os oficiais e, ou evitá-los, ou eliminá-los com armas silenciadas ou com o nosso fiel machado. E também podem usar ou montar uma série de armadilhas que eliminam incautos. Assim, é possível passar alguns níveis sem um só tiro disparado.

Seja como for que decidam prosseguir, a cada Nazi eliminado, objectivo cumprido ou nível ultrapassado, vão ganhando experiência. Notem que a evolução da personagem é passiva. Ou seja, não há habilidades para seleccionar na evolução. Estas vão evoluindo consoante o tipo de jogo que façamos de uma forma perfeitamente automática. Usem mais o machado e ganham níveis de proficiência furtiva. Eliminem mais oficiais, deem mais “headshots”, usem mais um tipo de armas, quase tudo é passível de evolução, adaptando-se ao que fazemos. E é muito importante que ganhem mais habilidades, uma vez que ao avançar o jogo, vai-se tornando tudo mais complicado, inclusive com alguns bosses mais fortes lá mais para o fim.

Comparando com o jogo anterior, gostei de ver que os mais altos níveis de dificuldade continuam a gerar um desafio interessante. Contudo, não me recordo dos checkpoints serem tão francamente espaçados. Cheguei a limpar áreas quase inteiras para ser eliminado por um último inimigo, acabando o checkpoint por me colocar no início dessa área… com todos os inimigos recuperados. E isto aconteceu-me muitas vezes. É frustrante. Obriga a melhorar a nossa proficiência, sim, mas também a confiar no seu sistema de savegame. Aqui, não precisavam ser tão “old school”, produção.

Também notei que os níveis estão menos lineares, apostando em algumas rotas alternativas e mesmo em algumas passagens secretas. Não é propriamente um “mundo aberto” mas dá algumas opções na movimentação e na acção, obrigando a alguma exploração e estudo da melhor táctica. Lamento apenas que essa menor linearidade crie alguma confusão no trajecto a seguir. Não havendo muitas ajudas visuais quanto a objectivos ou um mapa no ecrã (há um no menu, por vezes confuso de estudar), o objectivo pode não ser muito intuitivo a cada novo nível. O que, em termos de jogabilidade, pode criar alguma confusão sobre o que fazer a seguir.

Toda esta oferta está confinada a um único modo de jogo a solo. Não há modos de jogo adicionais cooperativos ou multi-jogador. Francamente, também não creio que outros modos viessem adicionar algo de novo. Talvez um modo Horde, ou algo assim, até fosse interessante, nem que fosse para aumentar a longevidade. Contudo, tal como está, The New Colossus até tem bom conteúdo. Além do modo de história, terão diversas missões adicionais de assassinato opcionais. Também poderão dedicar-se a encontrar todos os itens coleccionáveis. E porque não passar novamente o modo de carreira tomando opções diferentes que, por sua vez, dão acesso a armas e itens alternativos? E, já agora, porque não subir um pouco a dificuldade nessa segunda volta? É que o jogo até merece.

A nível técnico, o título anterior já foi um bom reboot de uma série clássica, que nem sempre tinha recebido boas experiências visuais. Neste jogo, a atenção ao pormenor continua evidente, agora com muito mais refinamento nas animações e comportamento geral da IA. Cada tiro nos adversários tem peso e a personagem reage de forma realista ao impacto. Há sempre imensas partículas pelo ar, nunca parecendo que o jogo e ressinta muito do peso no hardware (analisámos o jogo na PS4 Pro). Já expliquei que os níveis não são tão lineares, havendo diversos locais francamente bem desenhados, desde as ruídas irradiadas de Nova Iorque à intensa e movimentada cidade de Roswell. De facto, o motor gráfico Id Tech 6 está com bom aspecto e a performance parece sempre no ponto certo.

Mesmo as personagens principais foram alvo de algum cuidado técnico. Digo “algum” porque as animações gerais, sobretudo faciais, são cumpridoras, mas nem sempre parecem devidamente finalizadas. São interessantes, com sincronismo de lábios e expressões bem conseguidas, mas há algo estranhamente artificial em tudo. Ok, é tudo artificial, já sei. O que digo é que algumas faces estão mais detalhadas que outras e parece que as texturas nem sempre foram bem optimizadas. Além disso as movimentações corporais das mesmas parecem algo mecânicas, como se a produção não conseguisse fazer a captura de movimentos para todas as cenas, criando um algoritmo nem sempre realista. Talvez não seja importante mas penso que é notório para todos.

Veredicto

Como um objecto de entretenimento, Wolfenstein II: The New Colossus é um excelente shooter ao estilo da “velha guarda” mas com um óbvio visual modernizado. Muitos dos avanços em relação ao jogo anterior são realmente visuais, com uma maior atenção aos detalhes e no desenho de mapas menos lineares. Não tenta reinventar nada, apenas aprimorar o que esperamos encontrar num Wolfenstein. Contudo, talvez a sua maior capacidade esteja na mensagem que transmite. Contra as tendências actuais, surge para nos recordar que o Nazismo, o racismo, a xenofobia e todos os comportamentos desviantes que daí advém, merecem apenas o nosso ódio. Pode ser, por vezes, demasiado gratuita a sua violência, mas não se perde em pedidos de desculpa. Só tenho pena que seja um jogo a dar-nos esta mensagem e não o senso comum. Mas, isso seria outra análise…

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