Mais infoProdutora: EA SportsEditora: Electronic ArtsLançamento: 02/02/2018Plataformas: , , , , Género:

Para muita gente, o UFC é a competição máxima dos desportos de combate. E, tal como a Electronic Arts conseguiu com a série FIFA no caso do Futebol, este UFC 3 pode ser igualmente a melhor forma de entrar neste mundo tão exigente e único.

Algures no tempo, nasceu uma verdadeira comunidade que adorava o conceito do “full-contact”, trazido das suas raízes vindas de artes como o Muay Thai/Kickboxing, Jiu Jitsu, Judo, e tantas outras disciplinas, onde temos de destacar o brutal “Vale Tudo” Brasileiro. As competições de Mixed Martial Arts (MMA) tornaram-se num fenómeno de popularidade, não só em espaços lotados de fãs como na televisão via pay-per-view. Era uma questão de tempo até invadirem o mundo dos videojogos. Contudo, por mais simples e popular que possa parecer, a acção no Octógono nem sempre recebeu jogos competentes. Transportá-la para esta série da EA Canada e da EA Sports, foi uma revolução por si só. Este terceiro capítulo é mais uma aposta muito séria da produtora Canadiana, que quer, de uma vez por todas, terminar cada assalto com um K.O.

É discutível o que vou dizer mas, para muita gente, UFC e MMAs são sinónimo de Conor McGregor e vice-versa. Não é por mero acaso que o campeão está na capa. O Irlandês é capaz de ser o maior “vendedor” do conceito das MMAs dos últimos tempos, mesmo que seja uma figura controversa, dentro e fora do Octógono. O vídeo introdutório é uma adoração pura ao campeão, que também figura um pouco por todo o lado no resto do jogo. Afinal, qualquer pessoa que se aventura num desporto, ambiciona ser o “campeão dos campeões”. Então, vamos tentar a sorte em campo. Somos logo introduzidos num combate em podemos de imediato colocar a rapidez e resistência do Irlandês à prova. É mesmo aqui que vamos começar a amar ou a odiar UFC 3.

A minha experiência neste combate introdutório foi mista. Em primeiro lugar fiquei verdadeiramente impressionado com todo o ambiente criado pelo jogo. Parece que estamos mesmo a assistir ao início de um combate na televisão, com direito a representações muito fiéis de tudo, inclusive do grafismo e oráculos televisivos, os modelos e feições dos lutadores e até dos próprios apresentadores. A locução dos combates é verdadeiramente imersiva acompanhando o que se passa no ecrã de forma realista. É só quando o árbitro dá início ao combate e a câmara muda para a perspectiva na terceira pessoa (lateral) que eu me apercebo que tenho de “lutar” também.

Convenhamos que os controlos não mudaram muito desde as últimas versões. Usando a versão de consola analisada (Xbox One), a principal mudança está mesmo no uso do R2 e L2+R2 para bloqueio alto e baixo, respectivamente. De resto, pouco mudou e ainda bem. Temos outra vez quatro botões para cada membro (os dois braços e as duas pernas) e usamos os bumpers para modificadores. O analógico esquerdo serve para movimentar o lutador e o direito para esquivar de golpes. Mas, a aparente simplicidade de controlos é enganadora. Continuamos a ter de jogar com a nossa energia (stamina), que se traduz em combates curiosamente estratégicos de gestão de defesa e da força e impacto nos nossos golpes e contra-golpes.

Familiaridade quanto baste, o que verdadeiramente sempre me impressionou nesta série foi como os combates podem tornar-se tão imprevisíveis. O domínio de espaços, aperceber quando atacar, quando defender ou quando evadir acaba por ser um factor decisivo. Se nos primeiros assaltos quase dei K.O. ao meu oponente Tony Ferguson, nos dois finais levei uma lição de economia de forças que se traduziu no meu K.O. inequívoco, mesmo depois de ter feito duas montadas e disferir inúmeros uppercuts e outros golpes quase perfeitos. Desculpa, McGregor, mas tiveste de perder para eu me recordar que isto não é propriamente um desporto de pura pancadaria. Mas, sim, há muito murro e pontapé para dar lá no meio.

E a fluidez de tudo que faz com que este jogo seja tão realista. Por mais que já se tenha capturado os movimentos característicos dos atletas via “motion capture”, são as transições que tantas vezes deitam tudo a perder. Aqui tudo é fluido e “elegante”. Pelo menos até começarmos a abrir feridas, incharmos órbitas de olhos e sangrarmos abundantemente. Então o visual fica tão ou mais brutal como aqueles combates na televisão. Sangue, suor e lágrimas literais, com aquele clamor que só os coliseus Romanos seriam capazes de oferecer, mesmo que na altura os gladiadores chegassem a morrer em nome do entretenimento. Podem não gostar desta premissa, mas é a mesma que torna o UFC real tão famoso. Aqui tem a sua fiel representação digital que não pede nenhumas desculpas.

Onde, para mim, o jogo perde contra a realidade, é na sua fase menos fantástica: o combate no chão. Já nos jogos anteriores da série ficou claro que as montadas e as submissões não conseguem transmitir o mesmo realismo dos combates a pé. O analógico direito continua a ser usado para assumir diferentes posturas de ataque ou defesa, dependendo de onde estamos na montada. Mas, nesta situação, as transições são um muito mais sintéticas e puramente lineares sem grande liberdade. Tentamos proteger pontos críticos e mover-nos sempre que a stamina o permita, numa espécie de quick time events. Não sei se é possível melhorar muito esta interacção mas, quanto a mim, QTEs nunca são a melhor solução, honestamente.

Nesta edição, o UFC 3 tem mais alguns elementos que, tal como a realidade, transpõe a dimensão do UFC e dos atletas para além das paredes do Octógono. O maior apelo do jogo vai, logicamente, para o modo de carreira onde podemos criar o nosso atleta personalizado. Só que não basta dominarmos o desporto no tapete. Bem ao estilo do modo de carreira de FIFA, começamos nos circuitos amadores até chegamos aos combates das ligas maiores. E também como a simulação de futebol da EA, também temos de lidar com o aspecto promocional da carreira dos lutadores. Temos de treinar no ginásio, participar em acções de promoção e fomentar a nossa reputação junto dos fãs. O resultado é a fantástica envolvência que nos é familiar.

E notem que tem mesmo de haver um equilíbrio entre a performance e a promoção, não podem descartar o aspecto do marketing da competição. O treino tem de ser focado, apostando em melhorar atributos, mas é a promoção do próximo combate e a nossa reputação junto dos fãs que terão um factor decisivo na forma como somos notados. Estes modos de carreira a apostar no “glamour” de um atleta de alta-competição, estreados nos títulos de desporto da EA Sports, são francamente envolventes e tornam-nos interessantes de jogar. Estão longe dos modos de carreira a solo lineares e aborrecidos de outros títulos que nos levam de partida em partida, ou neste caso, de combate em combate.

Onde o modo de carreira pode realmente precisar de um equilíbrio é no seu nível de dificuldade. Se ao início os combates parecem algo fáceis, quando chegamos às camadas mais altas da competição, o desafio aumenta. Nada contra esta lógica, só que, por mais que treinemos e evoluamos o nosso atleta, parece que não conseguimos chegar ao mesmo nível de atributos da oposição. Sobretudo depois de deixarmos atletas aleatórios e passarmos a enfrentar atletas reais dos circuitos mundiais. E esta dificuldade só aumenta nos níveis de dificuldade mais elevados, como é lógico. Pude testar vários pesos (pluma, pesados, etc), assim com diversos estilos e até com atletas femininas. Pareceu-se sempre haver uma “barreira” de dificuldade quando passamos para os combates contra figuras conhecidas.

Felizmente, podemos recorrer a outros modos de jogo. O Ultimate Team também aqui faz a sua aparição com um viciante modo de gestão de equipas de MMAs, cujo objectivo é criar a selecção ideal de lutadores campeões. Aqui, notem, as cartas não possuem apenas jogadores novos, mas também movimentos, golpes especiais, habilidades e outros bónus para personalizar cada lutador. Se isto não bastar, aventurem-se pelos modos online para desafiar jogadores de todo o mundo. É mesmo aqui que serão verdadeiramente desafiados e vão achar que a dificuldade do modo de carreira, afinal, nem é assim tão grande. Isto, se não encontrarem o tão frequente Lag das ligações online da EA. Enfim…

Veredicto

O “campeão indiscutível” não é só o Irlandês Conor McGregor que surge na capa. UFC 3 é um autêntico campeão no que toca a replicar a brutal e exigente competição de MMAs. O seu rigor visual é tão evidente como é o seu rigor técnico, ficando só um pouco aquém no jogo de chão das montadas e submissões. Os diversos modos de jogo, onde se destaca o envolvente modo de carreira, garantem muitas horas de diversão. Não é um jogo fácil de dominar, obrigando a uma dedicação normal para ultrapassar a sua dificuldade em níveis mais exigentes. É, contudo, a experiência mais próxima que terão de entrar no Octógono. E com muito menos lesões, garantidamente.