Mais infoProdutora: Saber Interactive Editora: Focus Home InteractiveLançamento: 30/10/2017Plataformas: , , Género:

Tendo bastante sucesso no PC o primeiro Spintires tornou-se num fenómeno. Que tal um jogo de condução em que não conta tanto a velocidade, mas a destreza em navegar pela lama? Esta é a premissa desta sequela Spintires: MudRunner, agora também nas consolas.

Tive o primeiro jogo debaixo de olho durante bastante tempo no PC. Acredito que todos os amantes de jogos de condução gostam de desafios diferentes. Era essa a ideia que tinha quando o coloquei na lista. Aqui estava um jogo que um dia haveria de experimentar. Sempre gostei do desafio do todo-o-terreno, mas nunca tinha encontrado um jogo verdadeiramente realista nesta área. Dei uma chance a Spintires.

O jogo era algo desprovido de conteúdo, sem modos muito elaborados de carreira ou de multi-jogador. Baseava-se apenas em conduzir veículos pesados em estradas que nem um país do terceiro mundo gostaria de ter. No meio da lama, de dia ou de noite, tínhamos de lidar com (falta de) tracção, uso de guinchos e até com a inclinação do veículo. O objectivo era transportar carga de um ponto ao outro, seja com a caixa aberta do camião ou num reboque (ou ambos). Mais peso, mais dificuldade. No entanto, além das físicas muito avançadas e de alguns pormenores curiosos, era preciso um pouco mais substância para este jogo não ser tão aborrecido. Talvez este novo MudRunner resolva isso.

O anúncio de Spintires: MudRunner também nas consolas não foi surpresa para mim. Durante bastante tempo, a produção esteve silenciosa quanto a actualizações da versão PC do original. Se bem se recordam, chegou mesmo a haver suspeitas de sabotagem perante alguns problemas e inércia da produção e resolvê-los. Quando uma produtora de um jogo de sucesso se torna mais discreta no seu suporte ao jogo original, muitas vezes é sintoma de que uma sequela está a caminho. Com uma interacção tão simples e facilmente adaptável a um gamepad, nada como levar a fórmula ao mundo das consolas para obter ainda mais sucesso. Só era preciso que nos desse “mais jogo” para as mãos.

Spintires aproveitou muito bem aquele nicho tão específico de condução de veículos pesados, que vão desde Euro Truck Simulator até Farming Simulator ou até ao recente Gold Rush: The Game. Ou seja, ou vão amar esta condução mais lenta e mais técnica ou vão odiar cada segundo, sentindo-se aborrecidos muito rapidamente. Este MudRunner é, em quase tudo, igual ao seu antecessor no que toca à condução. Aconselho vivamente a passarem pelo tutorial inicial para conhecerem todos os pormenores e controlos. Até acho que, logo aí, fica claro se este jogo é para vocês. É que, ao verem que nada é realmente simples e que, por vezes, curtas distâncias podem levar largos minutos para lidar, nem sempre por falta de destreza nossa, já terão uma ideia da fórmula que o assiste.

Em termos de novidades, não há muitas em relação ao jogo original. Como já disse, a sua carreira é um pouco básica, como um modo de jogo sequencial com progressão. Felizmente, há missões únicas com objectivos desafiante e mais rápidas para experimentar. Basicamente, são missões de transporte com níveis de dificuldade diferente. Podem escolher um conjunto limitado de veículos, seja para explorar, fazer os transportes, ou até para dar auxílio. E esta última tarefa é muito importante. Vão capotar ou ficar atolados muitas vezes. Usar o guincho é um pouco mais eficaz neste segundo jogo (especialmente porque podemos “disparar” o guincho para nos puxar). Mas, o que fazer quando o veículo não tem guincho?

Como pudemos usar mais que um veículo (e até descobrir outros pelo mapa), podemos ir ao local para puxar ou mesmo empurrar o veículo bloqueado. Atenção apenas aos danos que podem danificar os dois camiões e ao combustível gasto no processo. Idealmente, não fiquem também presos, claro. Usar mudanças normais ou redutoras manuais, evitam muitos problemas. Contudo, o mais provável é usarem a caixa automática para quase tudo. O selector de caixa de velocidades não é muito intuitivo, usando o analógico direito no DualShock 4 (versão analisada na PS4), mas até é relativamente fácil de usar.

Ao volante, tudo é uma questão de estratégia. Nenhuma estrada (se é que se pode chamar assim, às vezes) é impossível de lidar, por mais profunda que seja a lama ou o rio que a atravessa. Pelo meio, até há caminhos alcatroados, como uma piada da produção para nos dar a ilusão que o jogo até é fácil. Nada é fácil neste jogo. Vejam só como uma simples carga pode correr mal com este meu exemplo. Com um camião carregado de troncos, mais um atrelado também completo, decidi subir uma colina, para evitar o rio ao lado. Como devem calcular, a subida foi lenta com tanto peso. Resolvi manobrar a direcção para tentar subir na diagonal para evitar patinar tanto na lama. Erro! O veículo e reboque começaram a deslizar e capotei o veículo.

Depois de algumas tentativas frustradas de endireitar de novo o camião, decidi ir buscar um outro camião à base. Dirigi-o para o camião virado e com a ajuda de ganchos e de um guidaste lá consegui remover o camião virado da base da colina, finalmente colocando-o a direito. Só que todo este processo teve um duro revés. Fiquei sem combustível com tantas manobras com diferencial ligado (tracção às quatro rodas). Felizmente, na base podemos trocar a caixa de transporte por vários outros equipamentos, inclusive um módulo de cisterna para abastecer algum veículo sem combustível. Só que… no caminho para lá, decidi passar pelo tal rio e não consegui antever a sua profundidade. Afundei o veículo… Reload!

Depois de umas duas ou três tentativas, lá cheguei à serraria para descarregar os troncos. Agora o jogo exige que estacionemos o veículo num sítio próprio e, notem, tem de ficar exactamente num local assinalado a vermelho e na direcção certa. OK! Tantas horas a manobrar reboques em Euro Truck Simulator devem servir para aqui, certo? Até servem, mas a câmara não ajuda nada. A perspectiva de visão é francamente má. Apenas permite duas opções na terceira pessoa para o camião, uma também também na terceira pessoa para o reboque e uma câmara na primeira pessoa na cabine. Digamos que precisei de umas quantas voltas e correcções até conseguir estacionar no sítio certo. Foi só a primeira missão após o tutorial e já estava exausto…

Agora experimentem fazer isto tudo à noite… Só temos mesmo os faróis frontais e nada de focos laterais ou algum suporte. Tudo bem que a noite em jogo não é propriamente escura ao ponto de não vermos rigorosamente nada. E até podemos aumentar a gama/brilho para ajudar mais um pouco. Contudo, era bom termos uns focos laterais para evitar deslizar para declives ou buracos. Estes camiões são todos inspirados em veículos de fabrico Russo (leiam, “soviético”). E, já sabem… na Rússia, não há cá facilidades, camaradas. Luz, só para a frente, não sejam capitalistas!

Quem jogou o primeiro título vai achar que tudo isto que falei é familiar. Saibam que o jogo é virtualmente o mesmo. Só não o é no seu modo multi-jogador. Imaginem a situação acima, mas neste caso estou a jogar online e posso chamar um amigo para me ajudar a tirar o veículo de apuros. Parece interessante, não?  Acontece que das muitas vezes que tentei juntar-me a um lobby, o jogo falhou em encontrar jogadores. Ou, então, colocou-me em sessões de um ou outro jogador que me ignorou ou simplesmente abandonou a sessão pouco depois. É pena porque no primeiro título recordo-me de participar até corridas de camiões com recurso a mods. Algo que, já agora, está em falta neste segundo jogo, pelo menos nas consolas.

Tecnicamente, o primeiro Spintires nunca foi um colosso visual. O seu forte eram as físicas realistas e a simulação de líquidos e lama também muito realista. Na PS4 (Pro) este segundo jogo continua virtualmente idêntico, para o bem e para o mal. Os ambientes, quase sempre de florestas densas com lama avulsa, sempre foram desprovidos de vida e com uma paleta de cores muito pálida. Mas, parece que aconteceu mais qualquer coisa na conversão do PC para as consolas. A iluminação, de um modo geral, é pouco realista, com sombras estranhas (ou omitidas, de todo). No que toca à simulação da lama, sim, as físicas estão igualmente realistas, mas a lama deixou de ser aquele fluido realista. Por vezes, parece agir como coágulos que se agarram ao veículo. Esta simulação era um dos pontos fortes do jogo, não entendo o que aconteceu aqui.

Veredicto

O tal fenómeno de condução em lama está de regresso. Contudo, Spintires: MudRunner parece ser só uma repetição do primeiro jogo, com poucas novidades e ainda menos melhorias. Não haveria nada de errado nisso, uma vez que podia ser só uma versão de estreia nas consolas, onde a sua interacção simples está “em casa”. Contudo, esta é uma oportunidade perdida para melhorar, por exemplo, o grafismo de um modo geral, além de criar novos objectivos ou um modo de carreira mais interessante. Infelizmente, também aquilo que lhe deu fama, a simulação da lama, parece ter sofrido com o port para as consolas. Não deixa de ser uma excelente experiência off-road, mas gostávamos de ter “mais jogo” para desfrutar.

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