Mais infoProdutora: AtlusEditora: Deep SilverLançamento: 04/04/2017Plataformas: , Género:

Desde que foi lançado em Setembro do ano passado no Japão, Persona 5 tem vindo a ser aclamado pela crítica local, o que levou a alguma antecipação por parte do mundo Ocidental. Chegando cá, parece que a qualidade se confirma com uma excelente reacção. Resta saber o motivo desta receptividade.

Com cinco títulos na série, qualquer pessoa que chegue agora pode sentir-se intimidada. Não é de estranhar. Pessoalmente, os jogos da série Persona passaram-me um pouco ao lado, tendo testado de forma sucinta um ou outro título. Não significa que os JRPGs (Japanese Role Play Games) não me atraiam, mas convenhamos que muitos nos são estranhos. Persona 5 poderá ser mesmo isso nos primeiros minutos de contacto: Estranho. Contudo, penso que todos gostamos de jogos que possuem profundidade. E não há maior exemplo dessa profundidade que um jogo que, à partida, nos faz franzir o sobrolho, mas que, com dedicação e vontade de o explorar, revela uma pérola escondida. Só que isso implica que todos os outros jogos na vossa PlayStation 3 ou PlayStation 4 terão de esperar um pouco enquanto descobrem este novo título da Atlus. Já vão perceber porquê.

Na pele de um jovem estudante que é enviado para Tóquio, Japão, vamos ingressar numa nova escola, a Academia Shujin, depois de uns problemas com a Lei. Rapidamente, voltamos aos ditos problemas quando nos apercebemos que temos a capacidade de deambular por um bizarro mundo alternativo chamado de “metaverse”, onde “palácios” escondem aberrantes desvios mentais de realidades deturpadas. Na essência, percebemos que temos uma identidade real e depois… uma personalidade alternativa chamada de Joker. Com esta entidade, temos de liderar uma rebelião perpetrada pelos chamados “Phantom Thieves of Hearts”, cujo objectivo é muito simples: mudar a sociedade por tocar os seus corações e alterar comportamentos. Nada fácil…

Para nos acompanhar nesta complexa e estranha tarefa de tomar de assalto as mentes dos incautos, temos uma série de companheiros peculiares. Na nossa companhia estará, um gato falante (Morgana), um atleta e músico (Ryuki) e uma rapariga… digamos, perturbada (Anna). Eventualmente, estas personagens são bem mais que companheiros de aventura e terão espaço para criar relações entre estas personagens, tanto as “reais” como os seus alter-egos do universo alternativo do metaverse. Vai levar algum tempo até que estas relações evoluam e é óbvio que ao início ainda estarão a vencer a estranheza inicial, que só se amplifica com estes companheiros. Mas, é essencial que desenvolvam as amizades para melhorar prestações em combate e até desbloquear bónus especiais.

Não se assustem com o número “5” no título. Apesar desta série contar com uma mão cheia de jogos, este quinto título é totalmente independente ao nível de enredo. O que é uma excelente notícia para os que pensavam que tinham de ir a correr jogar quatro extensos e complexos jogos antes de pegar neste título. O enredo é completamente inédito e sem ligação aos jogos anteriores, algo comum na série, diga-se. É óbvio que se jogaram esses demais jogos terão uma melhor “bagagem” para abordar Persona 5. Até porque há alguns temas recorrentes e mesmo alguns eventos que fazem chamadas de atenção para os títulos anteriores. Se só agora chegam à serie, o máximo que pode acontecer é algumas dicas vos passarem ao lado. Mas, acreditem… muito mais vos vai passar ao lado.

Infelizmente, apesar de muitas das mensagens serem comuns, alguns pormenores culturais da sociedade nipónica ficaram perdidos na transição para a nossa própria cultura. Apesar de já termos conhecimento de muitos desses pormenores dada a nossa exposição a jogos e outros meios Japoneses, é perfeitamente normal que não entendam algumas piadas ou situações. O que também dificulta um pouco na transmissão de algumas mensagens mais profundas que estão engenhosamente embebidas no enredo. Acredito que a localização para a língua Inglesa trouxe iguais desafios para os tradutores. Mas, também acredito que esse é mesmo o encanto dos JRPGs, a descoberta de uma sociedade tão diferente da nossa.

Basicamente, o jogo irá levar-nos a duas realidades diferentes, mas perfeitamente interligadas. Quando a noite chega e somos transportados para o metaverse, surge o verdadeiro desafio de Persona 5. Cada um dos já mencionados “palácios” é uma autêntica “dungeon” repleta de demónios para combater em locais que nos são familiares, uma vez que são deturpações de locais “reais” que vimos nas actividades diurnas de Joker. O combate faz-se por turnos com selecção de ataques, defesas ou movimentos especiais. Há também secções de movimentação furtiva que obrigam a evitar o confronto ou a criar emboscadas para conferir danos inesperados nos adversários. Se estão familiarizados com este tipo de combate, estarão em casa. Mas, esta lógica de combate directo ou furtivo confere uma variedade interessante ao jogo.

Não sendo eu um grande apaixonado pela acção por turnos, o combate até é bastante intuitivo e repleto de pormenores interessante. Saibam, porém, que podem optar por um modo especial chamado de “Safety”. Neste modo, os inimigos tornam-se bem mais fáceis de derrotar e oferecem mais bónus pela sua derrota. Se morrerem a meio do combate, revivem de imediato e não perdem qualquer progresso. Este modo estará reservado para quem não pretende perder muito tempo em lutas, mas concentrar-se no enredo e na componente Role Play. Até porque, em alguns momentos, o jogo começa a ter uma dificuldade acrescida que, embora seja acessível com algum planeamento, pode não agradar aos jogadores menos habituados ao género.

Se durante a noite somos paladinos a combater os males do mundo numa acção por turnos digna de qualquer bom RPG, de dia as coisas são um pouco diferentes. A rotina do dia-a-dia do jovem estudante é estranhamente interessante. Nada podia ser mais monótono que reviver a vida de outra pessoa, certo? Contudo, esta ideia de sermos um “voyeur” numa vida de alguém com a grande diferença cultural vinda da Terra do Sol Nascente, tem sempre algum fascínio para muita gente. Vamos às aulas, trabalhamos em part-time, convivemos com amigos e até temos de fazer testes escolares. E uma boa prestação nestas actividades mundanas até tem uma validade inesperada. Existem inúmeras acções que podem melhorar as actividades nocturnas, como ler um livro específico para melhorar estatísticas, por exemplo.

E é perfeitamente normal que se deixem deslumbrar pelo conceito e arte do jogo, que nos faz lembrar um filme de animação Manga. Só que, “por acaso”, podemos interagir com este filme. Combinando elementos de banda desenhada com modelos 3D, possui um design muito interessante. Contudo, não esperem grande fidelidade gráfica na PS4, uma vez que este jogo foi concebido também na PS3. É de esperar alguma simplicidade geral do grafismo, mas que é perfeitamente compensada pela arte irrepreensível do jogo, que até nos menus se faz sentir. Nada foi deixado ao acaso neste título, inclusive na sua variada e muito bem escolhida banda sonora.

Veredicto

Ao fim de algumas horas a jogar Persona 5, fica claro que este jogo “suga” horas aos jogadores. Exige muita dedicação e atenção, o que irá, com certeza, afastar os jogadores casuais que procurem um jogo mais “descartável”. Se lhe derem uma “chance”, porém quando derem por vocês, estão completamente fixados na sua jogabilidade e arte geral. Obviamente, essa apreciação também depende do vosso apreço pessoal pela cultura Nipónica e pela banda desenhada Manga. Tem algumas questões técnicas, logicamente. Mas nada que o impeça de ser um dos melhores JRPGs que já joguei no passado recente. Com um enredo sólido, estranhamente simples ao início, mas que se ramifica em implicações sociais, políticas e morais, Persona 5 tem muita… personalidade.

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