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    Análise – Life is Strange 2

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    Mais infoProdutora: Dontnod EntertainmentEditora: Square EnixLançamento: 26/09/2018Plataformas: , , Género:

    Depois deu uma longa espera, a Dontnod Entertainment leva-nos novamente a um universo de jovens com poderes sobrenaturais mas que não são propriamente grandes heróis. Life is Strange 2 está aí para nos contar uma nova história, entre o comovente e o fantástico.

    Nota: Tal como o jogo, esta análise será dividida em cinco partes. A conclusão da nossa avaliação a Life is Strange 2 só será possível no final do quinto capítulo. Só então poderemos criar a nossa conclusão. Até lá, cada capítulo é avaliado individualmente.

    Análise ao Capítulo 1 : Roads

    Como o primeiro jogo, esta primeira parte serve para nos apresentar as personagens, os eventos e o alcance das repercussões presentes nas nossas decisões. Também tal como o primeiro título, Life is Strange 2 parece algo lento a arrancar, numa nova viagem aos pensamentos e dramas pessoais de um adolescente. Este é também um jogo de aventura gráfica, em que inicialmente acompanhamos um jovem na sua rotina diária, escolhendo opções de diálogo e tomando algumas decisões no dia-a-dia. Só que esta é uma evidente manobra de distracção. A dada altura, o jogo como que nos “puxa o tapete debaixo dos pés”… e aí vamos nós para a aventura.

    Sean Diaz é um jovem filho de imigrantes Mexicanos que vive em Seattle nos EUA com o seu pai Esteban e o seu irmão de 9 anos Daniel. Os primeiros minutos de jogo servem para formar a relação entre Sean e o pai. Os interesses de um adolescente em pulgas para ir a uma festa de amigos, colidem com um pai esforçado que só quer que os seus filhos sejam felizes. Logo aqui há um claro momento de decisão que vai ditar o rumo do resto do episódio. Teremos de escolher muito bem as nossas respostas e opções porque, acreditem, tudo se vai repercutir lá mais para a frente. Talvez não da forma que estão à espera.

    Curiosamente, a relação de Sean com o seu irmão Daniel é francamente distante nestes primeiros minutos. Esta falta de química é propositada, como irão ver mais tarde. Como aliás é toda a construção de relação introdutória entre Sean e a sua melhor amiga Lyla. Nada é por acaso, mas prefiro não revelar muito mais sobre estas questões. É que, subitamente, a vida de Sean e Daniel muda completamente com um evento sinistro e difícil de explicar. Basicamente, os dois irmãos filhos de imigrantes vivem na racista e xenófoba América de Trump. O que resulta num evento súbito e que escala tão rapidamente que quase não conseguimos absorver o que se passa em segundos.

    Com esta fuga de casa por dois irmãos menores, passamos a viver uma história completamente diferente. É por isso que disse lá em cima que os minutos iniciais eram “uma manobra de distracção”. A verdadeira história começa agora, numa caminhada com destino incerto e sem recursos de um adolescente e uma criança. É também uma história de ingenuidade, noção de responsabilidade, amizade, família e de crescimento. Tudo permeado com sentimento, enquanto formamos um laço (ou o quebramos) entre Sean e Daniel. Por mais que pensem o contrário, tudo o que fizerem terá uma reverberação. E, no final do episódio, até comparam as vossas decisões com as de outros jogadores a nível mundial.

    Sem querer levantar muito o véu, vou dar um bom exemplo do poder destas decisões. Na sua fuga, com pouco dinheiro, Sean é confrontado com a ideia de roubar. Não só pode ser apanhado pela lojista, obviamente, como Daniel pode ser mal influenciado a fazer o mesmo mais tarde. E há mais algumas repercussões ainda mais perigosas deste acto ilícito, até uma agressão. É uma simples decisão que pode parecer banal. Afinal, estamos em fuga e precisamos de provisões não tendo muito dinheiro para gastar. Contudo, os efeitos ficarão bem vincados nos acontecimentos seguintes, com consequências muito profundas. Assim foi o primeiro jogo e é bom ver que a Dontnod continua exímia a fazer-nos pensar.

    A experiência final deste primeiro episódio, confesso, é agridoce. Não é um sintoma de alguma falta de qualidade deste jogo ou da história contada. Já vou falar nisso. A razão é muito diferente, na verdade, uma consequência directa dessa mesma qualidade. Dependendo da vossa experiência de vida, todos passámos por momentos decisivos na nossa adolescência. Alguns talvez passassem por perdas de familiares e outros tiveram relações complicadas com os irmãos. Há aqui misto intencional de momentos de coragem, de humor, de brincadeira e de profunda tristeza. E, para mim, alguns momentos foram tanto de empatia, como foram de profundo impacto. O que só abona a favor da produção.

    E mesmo que não tivessem passado pelos mesmos desafios, é impossível não simpatizarmos com a causa do protagonista Sean. E é também impossível não compreendermos algumas das reacções do pequeno Daniel. A química criada entre os dois é complexa e perfeitamente relacionável. É simbolizada por dois lobos a correr no canto inferior direito do ecrã e há até momentos em que teremos opções especiais (simbolizadas a azul) para trabalharmos neste vínculo. Isto cria um história oscilante de confiança (ou da falta dela) entre os dois irmãos. E é bastante credível, tirando, obviamente, o facto de Daniel poder levitar objectos e destruir meio bloco de apartamentos.

    Conforme recordarão, há uma vertente sobrenatural que se tornou essencial para o sucesso do primeiro jogo. Foi até algo que senti falta em LIS: Before the Storm que, sem esta componente de fantástico, se tornou num mero jogo de aventura gráfica. Se jogaram o The Awesome Adventures of Captain Spirit tiveram um primeiro contacto com este poder de Daniel no final dessa demonstração. Infelizmente, só vamos ter neste episódio umas curtas demonstrações deste poder. Mas, irão perceber muito bem o potencial do mesmo em futuros episódios. Fiquem até ao fim dos créditos finais e verão o que o futuro reserva.

    Um dos maiores trunfos que irão encontrar neste jogo é a sua evolução visual em relação ao primeiro. Agora “alimentado” pelo famoso Unreal Engine 4, já tínhamos visto com Captain Spirit que o grafismo mantinha o mesmo aspecto, a fazer lembrar a banda-desenhada, mas dando uma clara actualização. Isto é notório na qualidade e detalhes dos cenários, nas animações e até nas falíveis animações faciais que tanto assolaram o primeiro título. Continua a parecer um Life is Strange mas é, claramente, mais polido e puxa mais pelo hardware que o seu antecessor. E é óbvio que também está de regresso aquela banda-sonora ecléctica que podíamos ouvir no nosso carro.

    Outra alteração bem vinda está na interacção. É algo subtil, mas nota-se que a produção quis remover um pouco a facilidade que havia no primeiro jogo. Agora, para conhecermos todas as nossas possibilidades em cada momento, temos me várias vezes ou de forma sequencial. E nem tudo será assim tão óbvio, havendo vários momentos em que parece que estamos bloqueados ou sem opções. Mesmo até durante a exploração, surgem opções de reacção a falas e algumas situações inesperadas. A interacção é bastante dinâmica e podemos até nem nos aperceber de uma ou outra opção diferente ali ao lado.

    Uma outra mudança está nos menus. Agora podemos navegar entre o mapa da nossa viagem, os conteúdos e decorações da nossa mochila e até os desenhos que fazemos no nosso caderno. Alguns destes desenhos, já agora, são criados em momentos-chave que teremos de procurar a perspectiva certa, interagindo de forma simples para criar o desenho em si. É uma espécie de recordação visual dos locais por onde os irmãos passam. Não acrescenta muito à experiência mas, tal como uma fotografia que tiramos de um local marcante, ficará para a posteridade.

    E, uma vez mais, tenho de dar o devido destaque ao argumento. Não só no que toca à história, que é já bastante interessante mas que só poderei avaliar no final do quinto capítulo. Falo também dos diálogos e a forma como tudo é escrito de forma brilhante. Não há um único momento neste episódio que não pareça ter sido minimamente cuidado para não parecer artificial ou pouco lógico. E ajuda bastante que o casting de vozes seja francamente bom. Há sempre um certo risco de personificar crianças em dobragens mas, neste caso, David é bastante plausível. Assim como são todas as outras personagens e os actores que lhes emprestam a voz, já agora. Inclusive alguns com um papel menos correcto na história.

    Veredicto do Episódio 1

    Este é um bom regresso da Dontnod Entertainment. Não desfazendo das suas outras aventuras ou de como a série teve um certo retrocesso narrativo com a prequela “Before the Storm”, Life is Strange 2 é um retorno muito desejado ao que a produtora sabe fazer melhor. Tem todos os ingredientes que apreciamos destas aventuras a roçar os temas fortes e o fantástico. Este primeiro episódio é só um pouco mais parado do que estávamos à espera. Contudo, é uma boa introdução ao que aí vem. A narrativa está impecável, as decisões estão complexas, a qualidade visual está no ponto, com umas melhorias em vários níveis. O único defeito é que, agora, temos de esperar pelo segundo episódio…

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