Mais infoProdutora: Sports InteractiveEditora: SEGALançamento: 09/11/2017Plataformas: Género:

Os amantes da gestão e estratégia futebolística, talvez não fiquem saciados com qualquer um dos simuladores de futebol da actualidade. Precisam de mais profundidade e poder de decisão no que se passa dentro e fora de campo. Para eles há Football Manager 2018.

É óbvio que o futebol atrai multidões e os videojogos relacionados com o futebol também, como seria de esperar. Se FIFA Football e PES são os reis dos simuladores do chamado “desporto-rei”, Football Manager será também realeza no que toca à estratégia desse desporto amado (e odiado). Contudo, diz-se por aí que, muda o ano e “o disco só vira o lado” para os simuladores. E todos os anos há também um novo FM para perpetuar essa sensação de repetição. Manda o bom senso que um jogo tão complexo como este se reinvente de vez em quando, ou acaba esquecido no conceito da “cópia anual”. Vejamos o que a nova edição nos oferece, ou seja, se vamos golear ou se, pelo contrário, vamos forçar o prolongamento.

no ano passado, vimos como FM 2017 inovou pouco mas simplificou muitas coisas, tentando aprimorar mecânicas e lógicas. De facto, a Sports Interactive possui uma receita muito refinada a cada novo jogo. Segundo a gíria futebolística, “equipa que ganha, não se mexe”. Não há outro jogo que nos demonstre tão bem como é o complexo trabalho de delinear e gerir uma equipa de futebol profissional. Os menus que intimidam tanto os recém-chegados são exemplares da complexa tarefa adiante. Não é por mero acaso que os clubes passam maus momentos até que se faça algum “clique”. Não importa só gerir a táctica para o jogo, é preciso lidar com orçamentos, contratos, objectivos e tantas outras lutas de bastidores que fazem com que a estratégia em campo funcione. Ou seja, é muito mais que gritar tácticas para um televisor num café de bairro.

Sim, estes factores acabam por diminuir um pouco a diversão possível num jogo de futebol, que, se calhar, só encontramos nos tais simuladores. Talvez por isso, desde as últimas edições, a produção da Sports Interactive tem vindo a focar-se mais no papel do próprio treinador que propriamente a ser uma base de dados interactiva que os primeiros jogos sempre foram. Gosto particularmente que me coloquem no papel de estratega da equipa, deixando o trabalhos secundários para assistentes e directores do clube. Continua a ser um jogo de estratégia com muitas tabelas para consultar, havendo mais incentivo para o papel desempenhado. Contudo, a produção pode não ter atingido todo o potencial desta abordagem. Mas, sobre isso já falaremos.

Há alguns ingredientes novos na fórmula. A grande novidade deste ano, é que teremos de lidar com químicas de jogadores, obrigando a estar mais atentos às suas performances e compatibilidades com os colegas. É uma adição curiosa que pode criar situações inesperadas. Aquele investimento que fizemos com um craque Argentino, pode ser a peça que faltava na estratégia que delineámos para aequipa. Contudo, o extremo Brasileiro que já estava no plantel parece não conseguir entrosar-se com o novo jogador. O que fazer? São situações oscilantes que depois geram climas no balneário. A nossa prestação a cada jogo também influencia o estado de espírito da equipa técnica e dos jogadores. E é preciso ter cuidado ou, simplesmente, podemos perder o controlo do balneário.

 

 

Contudo, por mais que o jogo se esforce por ser dinâmico nestes pormenores, é inevitável acabarmos na rotina. A tal que afasta muitos novos jogadores. Afinal, esta série sempre foi de gestão desportiva e, se o objectivo é ganhar jogos e competições, temos que gerir dados e estatísticas. Dirão os veteranos que é mesmo isso que querem e não é condenável essa sua abordagem. Lembro-me de jogar títulos tão velhinhos que não passavam de tabelas e percentagens que tentávamos fazer algum sentido. Apesar do ambiente gráfico e de outras interacções mais ao estilo do Role Play, FM 2018 ainda honra essa herança.

Todos os que chegam a um jogo de gestão como este, irão intimidar-se com o interface. Muitos quadros, muitas tabelas, muitos números e gráficos para interpretar. Não é um jogo para todos, muito menos para os que não têm paciência para aprender toda uma nova fórmula. Os ecrãs tácticos, felizmente, estão mais simplificados e de (mais) fácil leitura, sobretudo nos que surgem durante as partidas. Mas, não desesperem veteranos. Não há nada de realmente novo ou modificado. Simplesmente, a informação está disposta de outra forma e até está mais organizada, quanto a mim. Gosto particularmente que o jogo me diga se a minha táctica está a funcionar ou não, ou se há problemas médicos com algum jogador a médio/longo prazo. Assim, não depende apenas da minha interpretação e ajuda-me a perceber se tenho de trocar jogadores ou se tenho de os potenciar.

Se há algo que será sempre complicado de replicar, porém, são as opções de negócio e de rotação dos jogadores, não as nossas, mas as da Inteligência Artificial. Ou seja, como os managers controlados pela IA gerem as suas equipas virtuais. Se forem como eu, gostarão de replicar a realidade e ter as equipas tal e qual as reais. Porém, se por ventura acompanharem o mercado no jogo irão ver transferências loucas de clubes que compram dois craques para a mesma posição ou que vendem os melhores jogadores para comprar outros equivalentes. Esta dinâmica de transferências parece ainda mais “atmosférica” neste título. Será sempre complicado replicar as transferências reais, mas também gostava de ver umas correcções regulares dos plantéis para evitar situações mais fictícias.

 

De volta está todo o espectáculo possível das partidas criadas pelo modelo de jogo 3D aperfeiçoado desde o ano passado. Agora, há uma melhor iluminação e também melhores modelos de personagens e estádios. Não vai rivalizar directamente com os já mencionados simuladores de futebol, mas nota-se que a produção deu uns passos em frente. As animações dos jogadores continuam algo mecânicas, mas estão melhores. A inteligência artificial parece-me competente para reagir aos lances. Só tenho pena que as minhas alterações estratégicas pareçam demorar um pouco demais a serem implementadas visualmente. Contudo, quando tudo funciona e as nossas tácticas resultam, é interessante ver como as estatísticas do jogadores virtuais estão tão fiéis às capacidades dos reais.

E fora de campo o espectáculo também é garantido. Hoje em dia, o futebol é vivido, tanto dentro, como fora do relvado, com jogadas de bastidores a terem (demasiada) importância nos destinos do clube. Por isso, não é de estranhar que muita da acção se passe em notícias a avaliar a nossa prestação ou a indagar sobre a nossa motivação de ir assistir a um jogo ou outro dos nossos rivais. Este tipo de reacções também ajudam a criar a atmosfera agregada ao futebol real, fruto de artigos tendenciosos, teorias de conspiração ou até de puras falsidades. Digitalmente, reflectem-se algumas destas situações. Felizmente, nem todas.

No entanto, a questão que sempre é levantada num jogo anual é se se justifica a sua compra em cada nova versão. De um modo geral, não basta que apenas que os plantéis sejam actualizados para a nova época. É preciso algo novo, caso contrário a versão do ano passado chega e sobra. Para dizer a verdade, este FM 2018 é mesmo uma versão muito semelhante à do ano passado. A principal diferença, já mencionei: A reorganização da informação e a leitura facilitada da mesma, além de pequenas adições pontuais. Podem haver alguns pequenos pormenores que ajudam na envolvência dos jogadores na atmosfera certa, mas a fórmula foi pouco alterada. O que até é bom, se pensarmos em quanto este jogo pode ter uma curva de aprendizagem tão acentuada.

Contudo, há alguns pormenores que precisam ser revistos. Parece-me que estamos sempre na “corda bamba” no que toca a decisões. Não há tolerâncias ou zonas cinzentas, apenas decisões certas e erradas, o que não me deixa grande margem de manobra. As queixas de jogadores, por exemplo, só têm uma solução positiva (atender ao seu pedido) ou uma solução negativa (despedimento). Gostava de poder ter mais intervenção nestes pormenores para dar aquela sensação de Role Play que o jogo tanto quer dar. É nestes momentos que sinto o que, como digo acima, parece não passo de um gestor de dados e estatísticas. O que é pena, quanto a mim. Perdeu-se aqui a oportunidade de criar algo realmente inovador. Mas também sei que a “velha guarda” não quer cá Role Plays…

Veredicto

Football Manager 2018 aposta muito mais nas interacções no papel de treinador, com uma espécie de Role Play Game que eu até aprecio. Contudo, com muito poucas novidades nesse sentido, parece ficar um pouco aquém desse rumo. Continua a ser “O” jogo de gestão de futebol, com todo o seu mérito. Contudo, há aqui uma sensação que a Sports Interactive teve algum receio de mudar demasiado alguns paradigmas, mantendo o seu legado para agradar a todos. Como novidades, apresenta poucas alterações de peso em relação ao ano passado, preferindo mais apostar num aprimorar da apresentação e da organização da informação. Talvez um dia tenhamos um jogo que passe por nos dar um papel de Manager mais aprofundado. Por agora, continuamos no vício de gerir estatísticas e interpretar tabelas. Afinal, o que sempre fizemos nos jogos do género.