Mais infoProdutora: UbisoftEditora: UbisoftLançamento: 26/10/2017Plataformas: , , Género:

Depois de um ano de pausa, estávamos todos ansiosos por ver o que a Ubisoft estaria a preparar com Assassin’s Creed: Origins. Depois dos problemas técnicos de Unity e da recepção morna de Syndicate, conseguirá a produtora Francesa recuperar a sua “chama”?

Há séries que são incontornáveis. Talvez não seja muito originais ao fim de uns lançamentos sequenciados. Talvez a sua jogabilidade já tivesse sido mais original. Contudo, há algo em Assassin’s Creed que sempre me apelou. Há quem aprecie mais a visita a uma era histórica, como um retrato do passado. Há quem goste do ambiente de mundo aberto e do espírito de descoberta. Há ainda quem aprecie o combate furtivo dos Assassinos, esgueirando-se pelas sombras e atacando os incautos. Eu tenho uma opinião um pouco diferente. Eu gosto de todos esses pormenores e entendo a sua validade. A minha apreciação, porém, advém da rotina. Sendo estes jogos tão grandes, adoro a rotina de lá voltar e completar mais umas missões ou explorar um novo local. Seja qual for o gosto de cada um, porém, o que se pede é que este Origins nos traga de volta a essência da série. A tal que parece ter-se esvaído, como um assassino pela noite…

Uma vez mais, Assassin’s Creed: Origins conta-nos uma história rica em personagens fortes e em valores e ideais intemporais, inseridos num contexto histórico desafiante e único. Contudo, esta não é uma história qualquer de mais um grupo de Assassinos carregando o peso do seu legado. Tal como o título indica, esta é uma história de origens. Altaïr, o herói que todos pensávamos ser um dos primeiros ou o original, era também ele um membro de uma ordem antiga e ancestral. Então, onde tudo nasceu? De onde vem o espírito de justiça e de vingança dos Assassinos? De onde surgiu a eterna batalha contra os Templários? E, já agora, qual a origem do dedo decepado dos Assassinos, ou a lógica das penas brancas? Para contar esta história, precisamos recuar bastante no tempo. Mais precisamente ao reinado do Faraó Ptolomeu XIII no Antigo Egipto.

Por esta altura, o Império dos Faraós estava a entrar num declínio visível. A esposa e irmã (sim, não era mesmo incesto) de Ptolomeu XII, Cleópatra, iniciou uma Guerra Civil pelo seu estatuto de Rainha. O Império Romano de Júlio César desfere constantes golpes militares devastadores. A cultura Grega emergente ameaça engolir as mais ancestrais raízes religiosas e culturais do antigo Egipto. Pelo meio, Bayek, um antigo protector do Faraó, membro de uma espécie de força de elite chamada de Medjay, vê os seus mais altos valores e ideais afectados pela corrupção dos seus líderes. Como último Medjay, Bayek acaba por enveredar por uma missão de vingança em nome da sua família. Eventualmente, essa vingança acaba por colocá-lo bem no centro da tal Guerra Civil. E, debaixo das ruínas criadas por essas batalhas, uma nova ameaça surge nas areias do deserto. Para combatê-la, um novo grupo é chamado ao dever: A Ordem dos Assassinos.

Há muito mais envolvido nesta história do que eu estou disposto a revelar. As primeiras horas deste jogo levam-nos para um dos melhores e mais significativos enredos que me recordo nestes jogos. De facto, não me sentia tão empolgado por um enredo desde Assassin’s Creed II. Também não me recordo de estar tantas horas seguidas a jogar com genuíno interesse desde Assassin’s Creed IV: Black Flag. Aliás, apetece-me dizer que esse último jogo, até agora o meu preferido de sempre da série, passou agora para segundo lugar. Origins tomou o seu lugar nas minhas preferências. Não, não consegue fazer esquecer aquelas fantásticas batalhas navais. Mas, tem outros atributos em sua defesa.

Todo o gigante mundo de Assassin’s Creed está repleto de contos, lendas e muita da mitologia que sempre me despertou interesse. O Antigo Egipto é, para muitos, uma época interessante e cheia de curiosidades e mistérios. Tudo é meticulosamente retratado, sem nunca cometer demasiados erros ou exageros. Esperem até entrarem numa das pirâmides de Gizé em toda a sua glória (decadente, diga-se), visitar o imponente templo de Memphis ou deambular pelas ruas exuberantes de Alexandria. Depois de ver tantas ilustrações e ler tantos livros sobre a época, aproveitando para conhecer um pouco da cultura Egípcia, não pude conter o meu entusiasmo de ver tantas coisas ganharem vida. Algo que só mesmo a Ubisoft consegue fazer com esta série, nas suas várias eras.

E quero mesmo enfatizar a palavra “gigante”. Apesar de muitos mapas de jogos anteriores na série possuírem uma dimensão considerável, arrisco dizer que nenhum teve esta dimensão ou esta diversidade de paisagens. Não só de desertos é composto o Egipto. Também não é só composto por templos ou pirâmides. Existiram prósperas metrópoles como as já mencionadas Alexandria ou Memphis, mas também enormes cidades e aldeias conquistadas ao deserto, exuberantes oásis repletos de palmeiras e árvores, escarpas cravadas pela erosão, sem esquecer os planaltos verdejantes em volta do rio Nilo. Tudo isto possui um rigor visual sem precedentes, tanto nesta série, como em muitos jogos de mundo aberto. Não posso reforçar mais esta beleza visual. O jogo possui um modo de fotografia que podem e devem usar e abusar para capturar esta lindíssima experiência.

E aqui estou eu a falar já da riqueza histórica e da beleza visual do jogo, sem antes abordar tudo o que faz dele, realmente, uma experiência interactiva viciante. Pasmem-se, há, de facto, um jogo nos intervalos dos momentos de deslumbre. Como devem imaginar, longe estão muitos dos avanços tecnológicos que vimos ao longo da série, inclusive as armas de fogo ou os explosivos dos últimos jogos. Assim sendo, o foco é dado a uma acção mais arcaica, com menos “gadgets” e com recurso nas armas de lâmina como espadas, lanças e adagas ou a maços e escudos, além dos competentes arcos e flechas para ataques à distância. Tudo isto pode ser usado a pé ou a cavalo/camelo. Contudo, não esperem aqueles ataques faseados de ataque e defesa com uma só tecla para o efeito. Algumas coisas mudaram. Para melhor, felizmente.

O combate é agora realizado com recurso a duas armas por cada slot (duas armas de melee e dois arcos) podendo optar pelas quatro em tempo real com recurso ao D-pad no comando. E há mais que um só tipo de arma possível. Podemos gostar mais de lanças para manter os inimigos mais distantes ou dos maços para ataques mais massivos. Contudo todas as armas possuem os seus prós e contras, como devem imaginar. As lanças fazem menos dano e os maços demoram mais tempo a movimentar. Os arcos também possuem diferenças. Há arcos para ataques mais sequenciais (ideais para atacar a cavalo) e outros para ataque de precisão à distância.

Combate mais próximo até nem é nada de novo, na verdade. Só que agora é realmente melhor. Sem querer fazer grandes comparações, talvez porque nenhuma acaba por ser justa, diria que a equipa de produção se inspirou em títulos como The Witcher III para “beber” um pouco dessa acção. O que é só positivo, notem. Temos de oscilar entre ataque e defesa, desviando ou bloqueando golpes ligeiros, mas evitar os golpes indefensáveis de inimigos mais fortes. Qual “Geralt Egípcio”, Bayek pode lançar-se ao ataque a cavalo, saltar do mesmo e lidar com armas ajustadas a diferentes tipos de ameaças. Os menos atentos, provavelmente, não notarão tanto estas diferenças no combate, mas os veteranos vão achar este refinamento muito mais interessante. Especialmente, porque carregar numa tecla repetidamente para ganhar os combates tornou-se algo absurdo na série.

Notem que, de acordo com a evolução de Bayek, poderão ainda melhorar a vossa mestria com cada arma, tornando-as ainda mais eficazes. Essa evolução confere novos níveis à personagem ao fim de um número determinado de pontos ganhos por cada missão concretizada ou tarefa cumprida. A cada novo nível, também as missões que recebemos vão escalando de dificuldade e recebemos pontos de experiência para gastar numa árvore de evolução. As novas habilidades variam de utilidade e de efectividade, desde simples descontos de compras a vendedores a novos movimentos de ataque e até na capacidade de dominar adversários ou animais. Devo dizer-vos que a evolução de capacidades de Bayek é notória e confere mesmo algumas modificações profundas na jogabilidade mais lá para a frente. Não se esqueçam de evoluir a personagem.

A evolução e a lógica de combate são realmente importantes para a continuidade da acção. Além das missões nos colocarem alguns desafios de combates específicos contra inimigos avulsos e outros desafios simples, nem só de simples soldados ou meliantes é composta a oposição neste jogo. Neste jogo irão encontrar temíveis adversários mais resistentes e agressivos na forma de Capitães e Comandantes em fortalezas que terão de conquistar ou libertar  por iniciativa própria ou em missões. Em muitos desses locais há também coleccionáveis e tesouros para pilhar. Assim, não terão outra escolha senão confrontar estes adversários mais resistentes. Apesar de muitas vezes ser possível vencer toda a oposição com ataques furtivos, eventualmente o combate directo irá acontecer.

E há ainda algumas ameaças menos regulares com que não estarão a contar. Andem pelos túmulos e ruínas à noite e os salteadores quererão “conversar” convosco. Após um período inicial, a vossa fama irá também chamar uns mercenários assinalados a vermelho no mapa. Cada novo mercenário que surge é sempre mais forte que o anterior e, se vos encontrar, atacará imediatamente. O desafio é garantido, especialmente ao encontrar algum que esteja dois ou mais níveis acima do vosso. Contudo, pior que estes humanos obcecados são os animais selvagens desta região. Obviamente, bandos de hienas, leões ou crocodilos serão os mais temidos. Mas, esperem até enfrentarem hipopótamos enraivecidos. Como irão passar muito tempo a caçar (pássaros, caça grossa e mesmo animais perigosos), vão travar conhecimento com estes animais selvagens que não terão qualquer problema em vos levar a conhecer o deus Anúbis pessoalmente.

E porque vão passar muito tempo a caçar? Porque, uma vez mais irão ter um sistema de crafting para obter materiais de modo a evoluir o equipamento de Bayek, claro. Mais setas, melhor protecção da armadura, mais itens de arremesso, tudo depende desta evolução via crafting. Eventualmente, lá mais para a frente poderão passar a comprar este materiais a vendedores, mas a caça é uma constante e muitas vezes perigosa (200 peles de crocodilo depois, eu sei do que falo). Alguns destes materiais de crafting, porém, não podem ser caçados. Bronze, ferro ou madeira, por exemplo, só podem ser encontrados na posse de alguns soldados armados, caravanas ou mesmo em acampamentos vigiados. O que também não é nada fácil de abordar, sobretudo ao início.

E já falei acima de “tesouros” escondidos. Estes também podem conter materiais de crafting, mas, regra geral, darão ouro (divisa de jogo) e mais equipamento. E aqui surge mais uma novidade de relevância para a jogabilidade. Agora o equipamento possui um nível próprio que é passível de evolução, além de um nível de raridade que confere alguns bónus. Esse nível de raridade varia de comum, épico ou lendário e pode dar até três níveis de bónus que incluem percentagens de danos, efeitos passivos (como sangrar adversários) ou activos (dano adicional em determinas condições), etc. É preciso que tenham em atenção estes bónus mas também o nível de danos ou protecção do equipamento. Devem evolui-lo sempre que seja possível, trocando por outro melhor ou por visitar um vendedor e “comprar” uma evolução. Esta é uma mecânica de loot é interessante, longe da lógica de equipamento fixo meio estagnada dos jogos anteriores.

E já que falo outra vez dos jogos anteriores, deixem-me falar agora do que não gostava. As lendárias torres em que tínhamos de subir para assinalar todas as actividades e um número ridículo de coleccionáveis? São agora meros pontos de observação e de “fast-travel”. Até dei por mim a ignorá-los completamente. Agora, assinalar pontos de interesse, inimigos ou tesouros é trabalho para a nossa fiel águia Senu. Também não terão aqui essa quantidade enorme de coleccionáveis para apanhar que ninguém quer saber, já agora. Ah! E aquelas missões de perseguição ou aqueles ladrões de carteiras que fugiam de nós? Enterrados algures. Talvez notem que a repetição continua idêntica e que as missões secundárias são novamente quase sempre em volta do mesmo (salvar alguém preso ou matar algum meliante pontual). Contudo, que seria de Assassin’s Creed sem isso?

Gostei particularmente das corridas de Quadrigas no hipódromo. Pode não ser algo muito inovador ou inédito mas é realmente diferente, envolvendo mais estratégia que velocidade, com alguma violência pelo meio. Também gostei do tom descontraído das missões de um modo geral. Tirando alguns momentos mais directos ao assunto, há algumas missões incrivelmente simples, mas nem por isso menos compensatórias. Uma dessas missões, por exemplo, será vingar jogadores reais que morreram em alguma parte do jogo. São assinaladas com um logótipo azul e o objectivo é matar os homicidas desse jogador. Nada complicado, a não ser se forem dois guardas de elite de um palácio. Mas, hey, eu só disse que eram missões simples, não disse que eram fáceis.

Lá mais para a frente no jogo, também poderão ver as coisas de uma perspectiva diferente. Antes de mais, contem com algumas missões específicas em que vão acompanhar Aya, a mulher de Bayek. Esta dupla acaba por ser bastante mortífera, primeiro para vingar uma importante morte, depois para ajudar no novo rumo que se apresenta para o Egipto. Sem revelar muito, Aya tem também uma curiosa participação numa batalha naval além de conhecer importantes personagens históricas. A outra perspectiva é que era perfeitamente dispensável. Uma vez mais, temos alguém na actualidade a usar o Animus da Abstergo para regressar no tempo através do seu ADN, de modo a reviver as experiências de Bayek e Aya. Desde a trilogia de Ezio que esta componente moderna perdeu o interesse, mas a Ubisoft insiste nesta lógica, sabe-se lá porquê.

Como esta análise já vai longa, não posso enumerar muitos mais pormenores que fui listando ao longo do tempo. Já falei do enredo, do rigor histórico, da qualidade do combate, da exploração, das missões, das mecânica de evolução e crafting, entre outros pormenores de qualidade. Em tudo, penso, deixei claro que este é um dos melhores Assassin’s Creed de todos os tempos, conseguindo também ser uma das melhores experiências em videojogo deste ano. Na plataforma testada, PlayStation 4 Pro, é um jogo fantástico, soberbo mesmo, onde apenas são notados pequenos bugs de animações e algumas questões pontuais ao nível de texturas e iluminação. Porque tenho este espírito analítico, encontro sempre defeitos. Mas, neste caso, tenho de admitir que são questões mínimas que rapidamente ponho de lado perante a qualidade geral de tudo o resto.

Termino apenas dizendo que a Ubisoft apostou também num esquema de microtransacções que nem todos vão apreciar. A troco de dinheiro real, poderão comprar pontos Helix para gastar em armas e equipamento raro, montadas, materiais de crafting e outros itens, alguns conferindo bónus para usar em jogo. Uma vez mais, dirão que será “pay to win” este acto de gastar dinheiro real para obter bónus para dar alguma vantagem, ou acabar o jogo mais depressa. Não havendo propriamente uma componente multi-jogador, porém, parece-me um tanto ou quanto irrelevante, especialmente porque é facultativo e ganhamos muita coisa em jogo. Se alguém quer pagar para não jogar, tem essa liberdade.

Veredicto

Nas palavras de um amigo, “nunca antes o ‘Credo’ teve tão bom aspecto”. De facto, Assassin’s Creed: Origins é uma excelente experiência a vários níveis, não só pelo seu fantástico rigor visual, mas também por muita da sua acção revista e melhorada. Há também muita qualidade na sua representação histórica e no enredo escolhido que dará origem ao lore que tanto apreciamos. Não é realmente perfeito, tem as suas questões e há sempre essa essência de repetição incontornável na série. Contudo, se levarem em conta as suas virtudes, darão por vocês parados a fazer mais uma fotografia algures numa planície a ver o por-do-sol… até serem atacados por hienas esfomeadas e passarem a ser os novos candidatos a múmia… sem preço!

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